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O Governo anunciou que vai comemorar o centenário da República com a inauguração “em simultâneo nacional” de 100 escolas, numa homenagem ao ideal republicano da educação.
Em primeiro lugar, trata-se de uma liberdade publicitária: o Governo não vai inaugurar 100 escolas de uma assentada, mas apenas a centésima escola construída nos últimos três anos. Em segundo lugar, bem pode o Governo inaugurar 100 escolas em três anos depois de ter fechado 700 só este ano, culminando um processo de extermínio que abrangeu mais de quatro mil estabelecimentos escolares na última década, o que representa um terço das escolas públicas portuguesas então existentes! De maneira que, fazendo as contas, a inauguração de 100 escolas por 4000 encerradas é um berloque talassa arremessado contra o ideal republicano da educação.
Bernardino Machado teorizou oportunamente sobre a matéria, preconizando o conhecimento e a verdade "para todos" ao invés de uma instrução representando "um meio novo de aristocratização". Mas sobre as palavras do terceiro Presidente do regime da "coisa pública" já lá vão 100 anos, precisamente a idade da República que, na versão revista para este início do século XXI, fecha escolas com a mesma leviandade com que encerra urgências hospitalares. Na mesma ocasião em que propagandeia a inauguração "em simultâneo" da centésima escola no 5 de Outubro, o Governo envolve-se numa guerra contra as autarquias que assumiram a responsabilidade de salvar algumas das escolas condenadas ao encerramento. Com a faca e o queijo na mão, o Governo não vai colocar professores em tais estabelecimentos.
A República cujo centenário se comemora teve quase meio século de interregno. E de há uns anos para cá é uma República de barões.
joaopaulo.guerra@economico.pt
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