Depois de uma interminável sucessão de encontros de Sócrates com os presidentes das federações do PS, com os presidentes de câmara socialistas e com o Grupo Parlamentar do partido, ontem a Comissão Nacional do PS decidiu finalmente que o partido vai apoiar Manuel Alegre nas eleições presidenciais no próximo ano.
Um apoio arrancado a ferros. Manuel Alegre devia estar em casa a trautear aqueles seus versos da ‘Trova do Vento que Passa': "Há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não".
E no PS, a começar por Mário Soares, havia muita gente a resistir e a dizer que não. Os socialistas apoiaram Alegre a contragosto. Primeiro porque muitos ainda não perdoaram Alegre por ter concorrido como independente, e à revelia do partido, às eleições presidenciais de 2006, nas quais obteve 20,72% dos votos, suplantando o candidato oficial do PS, Mário Soares, que se ficou pelos 14,34%.
Outros militantes com peso no aparelho partidário argumentam que a apresentação extemporânea da candidatura (a 15 de Janeiro) de Manuel Alegre terá inibido outros candidatos, mais alinhados com o PS, de se apresentarem à corrida.
Mas a principal razão para os socialistas estarem de pé atrás em relação a Alegre é a dúvida sobre que Alegre teremos na campanha eleitoral e que Alegre teremos se Alegre for Presidente da República.
Com Cavaco, o PS já sabe com o que conta. A promulgação, também a contragosto, e a justificação de Cavaco para deixar passar o diploma que permite o casamento ‘gay' é a prova que, pelo menos no combate à crise, o PS terá um aliado em Belém. E o combate à crise será agenda nos próximos quatro anos. Alegre, mesmo sendo da mesma família política, será uma incógnita. Basta recordar que Alegre arrasou a primeira versão do PEC que chegou ao Parlamento, enquanto Cavaco se limitou a pedir o aperfeiçoamento do documento.
Há um velho provérbio que reza: "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". No caso de Alegre, não se sabe muito bem com quem anda e, como tal, também não se sabe muito bem quem será Alegre daqui para a frente. Faz questão de dizer que a sua candidatura é "autónoma" e "supra-partidária", uma postura e um exercício de cidadania que lhe deu créditos e lhe permitiu ficar à frente de Soares em 2006. Mas ao mesmo tempo aparece a pedir o apoio do PS, aparecendo ainda demasiado colado ao Bloco de Esquerda. O mesmo Bloco que votou há dias ao lado do PCP uma moção de censura para derrubar o Governo. Alegre quis matar dois coelhos de uma cajadada: cumprir o seu ideal de unir a esquerda e chegar a presidente. Não se verificando a primeira premissa, ou seja, estando a união da esquerda esfrangalhada (o PCP até vai ter um candidato próprio e o PS e o Bloco sabem que não estão a apoiar o mesmo Alegre), Cavaco tem razões para estar Alegre.
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Pedro Sousa Carvalho, Subdirector
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