A economia está hoje demasiado débil para mais indefinições e as privatizações são imperiosas e urgentes.
O herói da esquerda é o trabalhador. O da direita é o empreendedor que melhor satisfaça o consumidor. Para a esquerda, os recursos são ilimitados e as necessidades exigem "estímulo", pelo que a taxa de juro é sempre demasiado alta. Para a direita, as necessidades são ilimitadas, os recursos limitados e a serem geridos com destreza e atenção ao retorno. Depois de anos a seguir a lógica de esquerda (quantas vezes lemos num jornal queixas de que a taxa de juro é demasiado baixa para incentivar à poupança?), a economia Portuguesa está hoje demasiado débil para mais indefinições e as privatizações são imperiosas e urgentes.
Para avançar existem 2 caminhos: o capitalismo popular e as vendas institucionais. O capitalismo popular implicaria vender as empresas a desconto e dificilmente teria sucesso numa economia descapitalizada. As vendas institucionais facilitam a venda no estrangeiro, a preços inflacionados pelo interesse em adquirir posições estratégicas na Europa pelos colossos mundiais (como por exemplo a Three Gorges na EDP) e maximizam o valor da receita para o estado. A situação actual incentiva a utilização do segu ndo.
A lista é conhecida e reúne 85% de apoio parlamentar - TAP, ANA, CP Carga, Caixa Seguros, CTT, RTP, Águas e algumas menores - mas o diabo está nos detalhes. Quem controlará a RTP privatizada? Como privatizar as Águas sem repetir Barcelos? Se a Caixa Seguros for retalhada, qual o futuro de uma empresa de resseguros "independente"? Nos portos e aeroportos, monopólios privados substituirão os públicos? Como garantir concorrência nos mercados privatizados? Qual a credibilidade das avaliações neste ambiente de volatilidade bolsista? Em Portugal perde-se muito tempo com lirismos - como "uma empresa de águas focada no lucro envenenará os seus consumidores?" ou "porque se vende a RTP se esta tem lucro?", apesar deste ser inferior à transferência estatal - e pouco com questões operacionais essenciais. O país merecia uma oposição menos ideológica e mais construtiva.
Como será então o Portugal pós-privatizações? O Estado terá encaixado cerca de 6.000 milhões para pagar excessos passados e estará mais liberto para corrigir excessos de empresas que lhe são independentes. Para empresas e trabalhadores, será uma oportunidade para aumentar a eficiência e gerar mais lucros e empregos - com tendência para maiores salários e pressão para maior produtividade. Ou serem substituídas por outras que o façam. Mas a verdadeira alteração é para o consumidor: devido à maior produtividade, eficiência e concorrência, os preços descerão enquanto a qualidade do serviço aumenta. E claro, o consumidor sentirá que as suas necessidades estarão em 1º lugar para quem compete pelo privilégio de lhe vender o serviço.
Ricardo C. de Magalhães, Consultor Financeiro
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