A opinião do director do Diário Económico, António Costa, do dia 25 de Julho, sobre o sector da comunicação social em Portugal. A história confirma-se.
O que se dizia há um ano sobre o sistema financeiro e sobre os bancos, pode dizer-se hoje sobre os grupos de comunicação social.
O programa de ajustamento - leia-se de empobrecimento - toca a todos, a publicidade está a cair a pique, não há capital próprio nem dos outros, os bancos. Por isso, no próximo ano, o sector vai mexer, os accionistas vão mudar, e os actores, ou a sua nacionalidade, curiosamente, até serão os mesmos.
Há, claro, uma operação que vai condicionar tudo o resto. A privatização de uma licença da RTP, provavelmente a do canal 2, parece inevitável, apesar de Miguel Relvas, de Pinto Balsemão e do mercado. A privatização do canal público tem riscos, isso é evidente, mas por razões conjunturais e não estruturais, para as televisões, mas também para os jornais, as rádios e o ‘online'.
A partilha de receitas, já limitada, vai ter de ser feita por mais um ‘player' e isso, obviamente, não é bem visto, num momento de mercado como o que se vive agora. Como os médicos controlam as entradas de novos médicos ou os advogados criam barreiras ao acesso à profissão. É dos livros, quem está, prefere estar sozinho a ter mais concorrência.
Há o outro lado, estrutural. O mercado está bloqueado, ninguém arrisca, ninguém quer fazer diferente, as tentativas para inovar são limitadas, e o operador que mudou a comunicação social em Portugal, a Impresa, de Francisco Pinto Balsemão, de facto, o último dos patrões-jornalistas, acaba por ser o seu maior obstáculo.
A chegada de um novo operador televisivo teria, terá, essa virtude, vai abanar o mercado, vai ser diferente, porque só sendo diferente é que será viável. Os novos negócios, que todos dizem procurar, vão ser o ADN do novo canal, qualquer que seja o accionista. E, neste ponto, os operadores, e particularmente a PT e Zeinal Bava, têm a responsabilidade de ajudar a desatar o nó.
A Impresa e a Media Capital, claro, têm o futuro preso pela decisão de Pedro Passos Coelho. Por razões bem diferentes.
Pinto Balsemão vai ser o novo ‘chairman' da Impresa e Pedro Norton será promovido a presidente-executivo. É a passagem de testemunho esperada, sonhada, como reconheceu Norton ao estilo de André Villas-Boas quando chegou a treinador do Porto. Especialmente desde a separação litigiosa entre Pinto Balsemão e Nuno Vasconcellos (da Ongoing, dona do Diário Económico). Esta mudança abre um espaço que estava, até agora, fechado. A situação financeira da Impresa exige um novo parceiro, um novo accionista e mais capital, como já exigia há dois anos, e a reestruturação interna do grupo permite isso mesmo, sem que o patrão perca o toque. A transição está aí, e não foi só na gestão. Já sabemos como começou, só ainda não sabemos como vai acabar.
Os espanhóis da Prisa já anunciaram que têm tudo à venda. Em Espanha, mas também em Portugal. E a Media Capital deverá ser, mesmo, o seu activo mais relevante. A venda da Media Capital soa a ‘injustiça', porque decorre das restrições e dos problemas financeiros graves em Espanha. Rosa Cullell, antiga jornalista de economia do El País, é a gestora-executiva e tem uma missão ingrata: defender a posição do canal líder de audiências e os seus resultados financeiros, criar novos negócios e fontes de receita e levar esta noiva a um qualquer altar. Que pague o que os espanhóis querem e precisam. Já sabemos que vai acontecer, só não sabemos quando.
E só falamos de televisão. Os jornais e as rádios estão na mesma, para pior.
Os dois grandes grupos de ‘papel', a Cofina e a Controlinveste, pertencem a empresários que têm, hoje em dia, mais com que se preocupar. Paulo Fernandes tem a Altri, está na comunicação social como em qualquer outro negócio, e tanto olha para a RTP como vende no minuto em que lhe puserem um cheque à frente, com os zeros necessários. Joaquim Oliveira está no negócio do futebol, o seu ‘core', que domina como ninguém, mas não está isento de riscos, e já se percebeu que quer estar de passagem num sector que não lhe vai deixar saudades.
Está escrito nas estrelas, os dois vão ser vendidos. Resta saber quando.
Sobram a Ongoing e a Sonae, grupos que não são de comunicação social, mas têm, respectivamente, 25% da Impresa e a marca líder de informação económica, e o diário de referência de informação generalista. Vão dançar ao som da música que vier a passar. A Renascença, essa, depende da decisão divina.
Há um excesso de oferta e do lado da procura só se vêem angolanos, que não conhecemos, e que até se podem dar ao luxo de escolher. E no momento em que o fizerem, se as eleições legislativas em Agosto o permitirem, vai ser como um dominó, as peças vão começar a cair e a questão é saber quem serão os novos donos do jogo.
No final do dia, o jornalismo precisa de mudanças, accionistas ou outras, precisa de romper o círculo vicioso em que caiu, por responsabilidades próprias e crises alheias. Porque o sector será tanto mais independente e credível quanto mais sustentáveis forem os órgãos de comunicação social. O maior risco, para o sector, para o próprio País, não são as pressões políticas, é a dependência económica.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt
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