A semana que hoje começa vai ser particularmente importante, desde logo porque estamos a três semanas da apresentação da proposta de Orçamento do Estado para 2011, mas sobretudo porque Cavaco Silva fez a vontade aos que queriam ver um aumento do seu envolvimento e intervenção numa crise que é económica, financeira e que arrisca transformar-se em política.
As intervenções públicas de Cavaco Silva têm-se multiplicado nas últimas semanas, numa conferência ou à saída de um qualquer acto público. Ora, o Presidente da República, não haja qualquer dúvida, já está em pré-campanha eleitoral. Tudo o que faz, tudo o que diz e o que deixa por dizer é avaliado e ponderado à luz das eleições presidenciais agendadas para o início de 2011. A natureza de Cavaco é esta e a sua história prova-o. A crise política em torno de um eventual chumbo do Orçamento do Estado para 2011 e dos riscos de cumprimento do défice público deste ano - ambos com consequências já visíveis no custo de financiamento que o Estado português está a pagar - criaram o terreno perfeito para a sua acção. Na pele de Presidente, exercendo uma magistratura de influência, e de pré-candidato a um novo mandato. O tabu da recandidatura, esse, é o segredo mais mal guardado.
Dito isto, a decisão de chamar os partidos com assento parlamentar a Belém justifica-se. Cavaco Silva decidiu bem, a tempo e horas, depois de perceber e concluir que o folclore político só tende a agravar-se. Por estes dias, aliás, o Presidente deveria aconselhar o Governo/PS e o PSD a calarem-se. Já falaram mais do que deveriam e, quase sempre, mal. O espectáculo que estão a dar, em público, não contribuiu para a defesa do que ambos dizem querer defender, a imagem de Portugal junto dos mercados e dos investidores.
Fica a principal pergunta: o que vai dizer Cavaco aos líderes partidários e, particularmente, a José Sócrates e a Pedro Passos Coelho? O Presidente é, em primeiro lugar, um institucionalista, por isso, quer ver aprovado o orçamento do próximo ano. De que forma? Vai pedir um novo esforço a José Sócrates para se aproximar do PSD e negociar um entendimento entre o Governo e o maior partido da Oposição. No entanto, Cavaco sabe que, tendo em conta o ponto a que chegamos ao nível económico-financeiro, vai preferir um mau orçamento - com mais impostos - a um país a viver de duodécimos. Por todas as razões. Por isso, vai seguir-se outro passo: Cavaco vai pressionar Pedro Passos Coelho a recuar nas suas exigências e a viabilizar a proposta de Orçamento para 2011.
O filme das últimas semanas torna evidente, do ponto de vista político, mas sobretudo financeiro e orçamental, que não há alternativa a um orçamento de Sócrates, mesmo com um insuportável e incompreensível novo aumento de impostos face ao que já era conhecido. É isso que Cavaco vai dizer. A contra-gosto.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt
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