A chanceler alemã Angela Merkel recebe hoje em Berlim a directora do FMI, Christine Lagarde, para discutir o futuro da Grécia.
No último fim-de-semana, o diário ‘Der Spiegel' alertava para a perda de fé dos técnicos de Washington em Atenas, dada a sua incapacidade para consolidar as contas públicas e reduzir o endividamento. O que é que é estranho nesta imagem? É o futuro da Grécia que está em cima da mesa e nenhum dos decisores, aparentemente, fala grego ou pára em Atenas. Estão todos em Berlim, Paris, Bruxelas, Washington - mas, aparentemente, todos se estão a ver gregos para encontrar uma solução para o novelo enrodilhado em que a economia grega se tornou.
Como se não bastasse o embaraço de Atenas para tapar o buraco financeiro na sua própria casa, Angela Merkel subiu de novo ao palanque para apontar o dedo: ou há progressos rápidos no plano de reestruturação da dívida grega ou não haverá dinheiro para a próxima tranche de ajuda ao país. Uns dirão que é Angela Merkel a puxar dos galões antes de abrir os cordões à bolsa para garantir que não os abre à toa. Outros dirão que é o descontrolo do governo grego que não consegue travar a queda desamparada do país no abismo. É possível que Atenas tenha mesmo perdido o controlo da gestão e das contas públicas. Mas ao fazer ameaças como a de ontem, Angela Merkel faz pouco pela reabilitação grega e pela sua manutenção no euro. E há um efeito de arrastamento que pode começar com essa saída da Grécia e que seria sensato travar.
As sucessivas réplicas da crise continuam a abalar os pilares da Europa e, apesar dos esforços de controlo, o risco de desmoronamento mantém-se. Um risco agravado quando as más notícias se multiplicam diariamente. Exemplos? Espanha diz que precisa de um ajustamento na ordem dos 16,5 mil milhões de euros, mas a Moody's contesta e avança com um valor quase três vezes maior. O governo italiano está concentrado na aplicação de medidas de austeridade, mas os juros de dívida já negoceiam acima de 7% (a fasquia mágica, alguém se lembra?) e o catastrofista Nouriel Roubini já veio dizer que Itália não tem hipótese: vai acabar por precisar de ajuda dos parceiros europeus.
Até ver, Portugal está safo. Do descontrolo grego, das ameaças alemãs, de mais profecias negras do Dr. Doom. Mas não está livre de perigo. A postura de bom aluno, que cumpre escrupulosamente as ordens que vêm de Bruxelas ou de Berlim, e que estão a garantir algum controlo na despesa pública, está a valer-lhe um desconto na pressão dos seus credores. Só que, à medida que surgem mais economias em apuros, começa também a escassear o dinheiro que é necessário para as salvar. E encontrar uma solução única para o dilema europeu, torna-se mais urgente que nunca.
O Nobel da Economia, Joseph Stiglitz deixou ontem o recado: Portugal é demasiado pequeno e vai precisar de mais do que o crescimento interno para se salvar. É prioritário um crescimento europeu mais rápido, mais apoio para os países em dificuldades e um banco central concentrado no crescimento e no emprego e não na inflação. Isso leva-nos de volta a Berlim, a Paris, a Bruxelas, a Washington. Porque é aí, no final de contas, que se está a jogar o futuro da Grécia, de Portugal, de Espanha, de Itália. Da Europa. Só será desejável que Merkel desista do papel de líder castigadora e, em vez de apontar o dedo ameaçador, aponte um caminho para sair da crise. Porque esta mesa de decisores tornou-se um eixo estratégico, mas não precisa de ser um eixo do mal.
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Helena Cristina Coelho, Subdirectora
helena.coelho@economico.pt
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