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Entrevista

“Administração da Caixa devia ser escolhida por um conselho de senadores”

Filipe Alves  
01/01/12 09:05

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Mira Amaral lembra “experiência amarga” na CGD.

Luís Mira Amaral defende a criação de uma arquitectura institucional que salvaguarde a administração da CGD. A ideia é instituir um conselho de notáveis que seria responsável pela escolha dos gestores do banco do Estado, que assim deixariam de ser tutelados directamente pelo Governo. Extremamente crítico de quem se serve da política para atingir cargos na vida empresarial, o antigo administrador da CGD defende a separação entre o trigo e o joio.

Como é que vê o papel da Caixa, no futuro?
Como sabe, tive uma experiência amarga na Caixa. Se há coisa de que estou arrependido na vida é de ter ido para a Caixa, largando o BPI. Só fui perder dinheiro. Neste momento já tenho uma reforma da Caixa que é inferior à que teria no BPI. Ao contrário das insinuações e das mentiras que têm dito sobre mim, num ataque infame. A Caixa devia era evoluir no sentido de existir um conselho geral, formado por senadores da República, responsável pela escolha dos órgãos de gestão. Um conjunto de senadores, pela sua reputação moral, pela sua independência, deveria escolher o conselho de administração. E assim deixava de ter ligação directa aos governos. A estratégia de usar a Caixa para aguentar centros de decisão nacional, ajudando grupos privados, deu mau resultado. A Caixa deve defender o interesse geral.

Já agora, devo dizer, chocou-me imenso chamarem comissário político a uma pessoa como o professor António Nogueira Leite, que é um dos melhores economistas portugueses. Outro caso é o de Nuno Fernandes Thomaz, que foi secretário de Estado do CDS. As pessoas esquecem-se que antes de ir para a Caixa foi director-geral no Banif... esses dois casos, para mim, são evidentes. Se fossem nomeados através de um conselho geral, teriam sido protegidos. São dois homens com vida própria que, como eu, não precisam dos partidos para viver.

Como é que vê as regras do acesso à linha de capitalização pública?
Foi infeliz aquela ameaça de ter três anos para pagar ao Estado. Eu até sugeri que devia ter sido aplicado um modelo semelhante ao utilizado quando o BPI comprou o Banco do Fomento, emitiu acções perpétuas, com cláusulas de ‘step up': se ao fim de cinco anos não for paga a dívida, o juro sobe drasticamente. O Governo devia ter feito o mesmo. Era mais elegante que esta ameaça. Nós sabemos que nenhum banco, por mais bem gerido que seja, pode garantir que dentro de três anos tem accionistas para resgatar este investimento público. Mas agora o Governo mudou de ideias, o decreto está muito melhor, o prazo passou de três e para cinco anos e o Estado pode apoiar sem ser accionista.

Neste contexto, há espaço para consolidação da banca portuguesa?
Devo dizer, numa perspectiva de médio prazo, que a geografia empresarial da banca portuguesa vai mudar. Numa economia em dificuldades, acho que algo vai acontecer na geografia accionista dos bancos portugueses. De facto tem de acontecer.

Acha que há um papel maior para investidores angolanos, por exemplo?
Primeiro, não havendo neste momento poupança privada em Portugal, esse papel tem de ser desempenhado pelos fundos públicos. Não há volta a dar. Mas isso não quer dizer que o Estado deve gerir bancos: seria um desastre. Segundo, temos de restabelecer a credibilidade da República. E no meio disto há que gerir alguns emergentes, como Angola e a China, que podem demonstrar mais disponibilidade para investir em Portugal nesta fase. Creio que isso já esteve subjacente à decisão do Governo de vender a posição na EDP aos chineses.

Como é que vê a venda a escolha dos chineses na EDP?
Para mim não foi surpresa. Eu já tinha percebido que - e o Dr Mexia não deve gostar que eu diga isto, mas posso - é que ele endividou altamente a empresa. E portanto com o endividamento da empresa e sobretudo com o défice tarifário criado, eu só via um projecto como o da China, com capacidade de financiamento. Porque não estou a ver uma empresa europeia ou americana dispostos a financiar isto. Enquanto para os chineses, com os excedentes que têm, isto são ‘peanuts'. A proposta dos chineses não é só a compra das acções, é financiamento para a EDP e financiamento do défice tarifário.





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