Dia 11 de Setembro de 2010. É Sábado e faz sol em Trás-os-Montes. O João, nervoso, espera ansiosamente a saída das colocações na Universidade.
São cinco horas da tarde e ouve um ‘beep' no telemóvel. Abre a mensagem e lê. Com o coração aos saltos vê que a mensagem vem da DGES (Direcção-Geral do Ensino Superior). São os resultados... Entrou! Uauh! Finalmente! Tantos anos a estudar para a faculdade! Vou para Lisboa!
É Sábado e faz sol no Algarve. A Francisca, nervosa, espera ansiosamente a saída das colocações na Universidade. São cinco horas da tarde e ouve um ‘beep' no telemóvel. Abre a mensagem e lê. Com o coração aos saltos vê que a mensagem vem da DGES. São os resultados... Entrou!
Uauh! Finalmente! Tantos anos a estudar para a faculdade! Vou para o Porto!É Sábado e faz sol em São Miguel. O Eduardo, nervoso, espera ansiosamente a saída das colocações na Universidade. São cinco horas da tarde e ouve um ‘beep' no telemóvel. Abre a mensagem e lê. Com o coração aos saltos vê que a mensagem vem da DGES. São os resultados... Entrou! Uauh! Finalmente! Tantos anos a estudar para entrar na faculdade... Vai para Évora!
Para todos, as inscrições nas respectivas faculdades abrem 2ª ou 3ª feira, isto é 39 horas ou 53 horas depois deste sms. As aulas para alguns começam logo, na 4ª feira seguinte!
"- Mãe! Entrei! Vou para Lisboa!"
"- Pai! Entrei! Uauh! Vou mesmo para onde queria: o Porto!"
"- Mãe! Entrei! Vou para Évora!"
"- O quê?"; "- O quê?"; "- O quê?" Ouve-se em todo o Portugal...
"- Vais para Lisboa?"; "- Vais para o Porto?"; "- Vais para Évora?" Ouve-se em todo o Portugal...
"- Sim!"; "-Sim!"; "-Sim!"
E é assim que os miúdos portugueses saem muitas vezes de casa. Em 36 horas a vida tem de mudar: escolher os pertences essenciais, levar os livros que não querem deixar na estante, comprar um computador à pressa, arranjar um quarto ou casa nesse fim-de -semana, dizer adeus a todos e sair... Tudo em 36 horas. Na DGES recebem-se as candidaturas a 6 de Agosto, 90% delas através de computador, não exigindo a manipulação de mais de 2000 candidaturas em papel. As classificações dos exames de 1ª e de 2ª fase chegam à DGES a 20 de Agosto. O computador demora 23 dias a correr a rotina de afectação de alunos às vagas...
Os alunos, os tais que são os filhos das famílias que pagam os impostos que mantêm o ensino superior têm de sair de casa e mudar de vida em 39 horas...Gostaria de ver os funcionários da DGES a fazerem o mesmo no mesmo espaço de tempo...
Nunca percebi isto. Na 3ª fase de colocações, os alunos candidatam-se na 5ª feira, e na 2ª feira imediatamente seguinte recebem a resposta...
Eles merecem uma explicação. Nem que seja o facto de se querer atrasar a resposta do ensino público para beneficiar as universidades privadas que, antecipando o início do ano lectivo duas semanas, ficam com tempo para "trabalharem" os candidatos a ambos os sistemas e para lhes cobrarem propinas desproporcionadas com o número de dias que muitos acabam por utilizar antes de ficarem no público que lhes desvenda tarde a colocação.
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João Duque, Professor catedrático do ISEG
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