A adesão da UGT ao acordo de concertação social, assinado na semana passada entre os representantes das Associações Patronais e o Governo, foi indiscutivelmente o acontecimento da semana. Tiro o chapéu ao João Proença pela visão que teve ao decidir assinar este acordo.
Todos sabemos que existem duas visões para a europa: a visão socialista e social-democrata, que luta para que a União Económica e Monetária se fortaleça, garantindo desta forma a solidariedade necessária à sustentabilidade do modelo social europeu, e a visão dos democratas-cristãos e liberais, que entende que esta sustentabilidade se atinge sem necessidade de se avançar para um modelo mais federalista, considerando mesmo a sua criação prejudicial para as liberdades do individuo. Não admira por isso que desde a criação do Tratado de Roma, em 1957, os avanços e recuos no projecto europeu tenham a ver com o confronto destas duas visões da europa, sendo com frequência necessário para se dar um passo em frente na implementação do projecto social europeu, ter a coragem de perceber que, por vezes, é necessário dar dois passos atrás.
Vivemos agora um desses períodos porque tendo havido, em especial nas últimas duas décadas, uma falta de sintonia entre a baixa velocidade de criação de riqueza e o alto ritmo da sua distribuição, os países endividaram-se muito sendo necessário ajustar o modelo económico e social para garantir a sustentabilidade futura. Foi o que há anos fizeram os países do norte da europa que, através de compromissos sucessivos, de avanços e recuos, conseguiram atingir o elevado nível de desenvolvimento que hoje possuem.
A história do sindicalismo europeu é uma história de sucesso, em que os trabalhadores foram ganhando direitos e regalias através de combates cuja intensidade foi gerida em função de uma avaliação realista das condições concretas que em cada momento enfrentavam. O moderno sindicalismo tem de adaptar-se às novas formas de organização social e económica de hoje, sob pena de, se o não fizer, se tornar obsoleto e perdedor.
A grave situação de Portugal e da europa requer lucidez e capacidade de compromisso, realismo e visão. Foi isso que a UGT demonstrou neste acordo. É um facto que há cláusulas do acordo que parecem significar um recuo em relação à situação existente. Todos o sabemos. Mas é preciso compreender que o País tem de aumentar a sua competitividade, tem de criar riqueza para a poder distribuir, tem de equilibrar as suas finanças e criar espaço para lançar o crescimento. Por isso tiro o chapéu à UGT e ao João Proença pela coragem que demonstraram, assumindo um papel menos popular é certo, mas incontestavelmente mais solidário e responsável.
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Francisco Murteira Nabo, Economista
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