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João Marques de Almeida

A Síria não é a Líbia

06/02/12 00:01 | João Marques de Almeida 



Com o agravamento da situação na Síria, começam a surgir comparações com o que se passou na Líbia.

Antes de se defender uma intervenção militar, mesmo ao abrigo do princípio da responsabilidade de potências externas protegerem populações, vítimas do uso da violência por parte do seu governo, convém perceber algumas dessas diferenças. Antes de mais, comparando com a oposição líbia, as forças de oposição síria, reunidas em parte no Conselho Nacional Sírio, estão numa situação mais vulnerável. Encontram-se fora do país (e há poucas informações fiáveis sobre a oposição interna), e não possuem uma base territorial no interior do país, como existia na Líbia, de onde se possa organizar um movimento e uma estratégia de libertação.

Em segundo lugar, as forças armadas sírias continuam unidas e disciplinadas, dominam militarmente o país e são uma das instituições centrais do regime. Gozam ainda de autonomia institucional, ao contrário das forças tribais e de mercenários que serviam o regime do Coronel Kadhafi.

Além disso, e mais uma vez ao contrário da Líbia, cujo regime estava isolado no plano externo, a Síria conta com o apoio do Irão e da Rússia. Para Teerão, Assad constitui o último aliado importante da região. Se cair, o Irão fica isolado. Por isso, ajudará até onde for possível o regime de Damasco. Do mesmo modo, a Síria é o último aliado árabe de Moscovo.

Não será fácil convencer o governo russo (especialmente quando se aproximam as eleições presidenciais) a aceitar uma Resolução do Conselho de Segurança. Ou seja, tendo em contas estas diferenças, neste momento uma intervenção militar na Síria estaria mais próximo do caso do Iraque do que do exemplo da Líbia.

No entanto, mesmo sem intervenção externa, é muito provável que a situação interna continue a agravar-se. Tudo indica que já não será possível evitar a guerra civil. Se isso acontecer, há três questões regionais da maior importância. Em primeiro lugar, como irá a Turquia reagir à intensificação do conflito no interior da Síria, sobretudo se se estender para o território turco? Mais a sul, conseguirá o Líbano ficar de fora de uma guerra civil na Síria? Será difícil, e não ficando, é provável que Israel acabe por se envolver, mesmo que seja indirectamente.

Por mais preocupações que um conflito desta natureza levante (e causa muitas, não haja dúvidas), pode abrir oportunidades estratégicas importantes. Poderá permitir um reforço da relação estratégica entre a Turquia e a Europa na região. Isolará ainda mais o Irão. E, por fim, poderá representar o início da reconciliação entre a Turquia e Israel, as únicas duas democracias consolidadas a sul do Mediterrâneo.
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João Marques de Almeida, Professor universitário




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