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Francisco Murteira Nabo

A Rússia hoje

O recente agravamento das tensões entre a Rússia e os Estados vizinhos, em especial com a Ucrânia e a Geórgia, leva-me a vos transmitir as impressões colhidas na recente viagem que efectuei à Rússia, em que a atravessei, de barco, de São Petersburgo a Moscovo, ao longo dos Rios Neiva e Volga.

Percebe-se que a Europa conhece muito pouco do que se passa na Rússia hoje, o que é perigoso, dada a recíproca e crescente dependência actual e futura - quer económica, quer estratégica - entre a Rússia e a União Europeia.

Se por um lado "choca" ver ao longo do Neiva e do Volga, os enormes silos de cereais abandonados, os embarcadouros e as fábricas completamente degradadas, com estruturas enferrujadas e abandonadas, reflectindo a crise económica que a Rússia viveu após o desmantelamento do sistema soviético e da acentuada queda do preço do petróleo, e ainda constatar que a população russa mais idosa, tem uma grande dificuldade em se adaptar ao modelo de sociedade emergente da "Perestroika" - havendo até um certo saudosismo, em resultado da perda de segurança no emprego que o anterior regime de certa maneira garantia.

Por outro a sensibilidade que se colhe é a de um país cheio de ambição e confiança, embora enfrentando graves problemas, como é o caso da preocupante quebra taxa de natalidade derivada da insegurança dos casais jovens quanto ao seu futuro, da elevada dependência do valor do PIB russo dos preços do petróleo e do gás natural, dada a baixa contribuição para o PIB da muito obsoleta indústria russa, e a elevada complexidade das suas relações com os novos Estados Independentes, dado a Rússia não querer perder o importante acesso aos mares Negro e Cáspio e garantir o controlo das complexas redes de "pipelines" e gasodutos que abastecem, em especial, a Europa.

Ambição, porque Vladimir Putin já fez saber que embora preconize um bom e equilibrado relacionamento com a Europa - que é hoje o seu maior parceiro comercial e principal comprador de gás natural - jamais abdicará de ter um papel protagonista na sociedade multipolar do futuro, assumindo-se como um ‘player' global e autónomo e afirmando saber muito bem o que quer - sendo prova disso o "tacto" que tem usado na questão da independência do Kosovo e, por outro, a dureza que utilizou na questão da Chechénia, crucial para o acesso ao mar Cáspio.

Confiança, que se sente no esforço de reconstrução, e na energia das novas gerações que já não tendo "vivido" sob o regime soviético, e que sendo gerações sacrificadas por terem de enfrentar os difíceis problemas de uma sociedade em profunda transição, têm orgulho na sua história, acreditam nas suas enormes capacidades e apostam no actual modelo de desenvolvimento do país.
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Francisco Murteira Nabo, Bastonário da Ordem dos Economistas