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Fernando Gabriel

A “revolução” Twitter

01/07/09 00:02 | Fernando Gabriel 



Quase três semanas depois das eleições presidenciais iranianas persiste uma enorme confusão sobre o significado, causas e consequências prováveis dos protestos pós-eleitorais.

Os crentes do progressismo, para quem a salvação de homens e nações exige a adopção da democracia liberal, vêem nos protestos o início da ansiada mudança de regime, com o Irão "verde" a juntar-se à Ucrânia "laranja" e à Geórgia "rosa" na ‘United Colours of Universal Democracy'. Todas as revoluções necessitam de líderes e de símbolos, e os revolucionários do ocidente já encontraram ambos: a direita imagina Mousavi como o Lech Walesa iraniano; a esquerda promoveu a jovem Neda Soltan à condição de Catarina Eufémia de Teerão.

A insurreição civil de Teerão não é nenhuma revolução: é parte de uma complexa luta interna pelo poder, que não pretende questionar a legitimidade da tutela jurisprudencial exercida pelo clero xiita - o elemento fundamental da arquitectura institucional do regime político. Esta luta interna opõe o ex-presidente Rafsanjani e parte da elite rica e corrupta que controla o poder desde 1979 a Ahmadinejad e aos seus aliados populistas, que pretendem restaurar o ascetismo religioso de Khomeini. Mousavi só adquire relevância porque a facção populista recorreu à fraude eleitoral para reclamar uma legitimidade democrática "inquestionável", mas o movimento de protesto civil é instrumental e secundário: geográfica e socialmente está circunscrito à elite urbana que se concentra no norte da capital e que gostaria de beneficiar de alguma liberalização de costumes.

Em 1905 a Pérsia iniciou um período de agitação revolucionária, que levou ao fim da dinastia Qajar em 1921. A insurreição agudizou-se com o assassinato de um clérigo radical, em 1906, mas ao contrário da jovem Neda, tratava-se de um seyyed - alguém que se admite ser descendente de Maomé. A agitação social que se seguiu, e que levou à aprovação de uma constituição, foi liderada por uma combinação de elementos religiosos (ulema) e de comerciantes dos bazares, uma força corporativa tremendamente poderosa, cuja greve paralisou Teerão. Os objectivos dos agitadores eram o oposto da "ocidentalização": pretendiam a eliminação da influência externa - especialmente da britânica e da russa, o proteccionismo corporativo dos bazares e a restauração da autoridade religiosa. Esta combinação de forças e de propósitos, que impulsionou todas as revoluções subsequentes, não só não está nas ruas mas define, evidentemente, a base de apoio e o programa político de Ahmadinejad. Para desgosto dos habitantes do planeta Twitter, não há qualquer processo revolucionário em curso no Irão, nem uma luta dualista entre o "bem" democrático e o "mal" autoritário nas ruas de Teerão: a crença zoroástrica nasceu na Pérsia mas parece ter ganho raízes mais profundas no pensamento político ocidental.




Comentários (4)

José Matias, Ponta Delgada | 01/07/09 13:42
Caro Cronista, as minhas desculpas. A minha insistência está, reconhece-o, a roçar o inconveniente, mas como, admito, sem reservas, a sua honestidade intelectual (e científica) em aceder a informação que contradiga aquilo que defende, aí vai mais uma referência ilustrando as "guerras" que perpassam a problemática das alterações climáticas, e que ilustra como as suas fontes são consideradas pelos outros: http://climateprogress.org/2009/06/30/epa-suppressed-report-endangerment-alan-carlin-cbs/


José Matias, Ponta Delgada | 01/07/09 13:26
Ainda em relação à sua última crónica sobre as alterações climáticas, venho ainda chamar-lhe a atenção para aquilo que Paul Krugman tem vindo a dizer sobre o assunto, quer na coluna no NYT, quer no blogue sediado no mesmo jornal: por exemplo, http://www.nytimes.com/2009/06/29/opinion/29krugman.html?_r=1; ou ainda, e com com toda a aplicação ao que disse anteriormente, http://krugman.blogs.nytimes.com/2009/06/27/temperature-trends/.
Se tivesse o seu e-mail teria todo o prazer em dar-lhe mais informação. Agradecia, de novo, que tivesse em atenção o esforço de boa educação que estou a manifestar consigo: mas, a cidadania, a isso obriga.


NapoLeão, | 01/07/09 11:05
Por falta de tropas e "cacau" a guerra no Iraque está nos episódios finais ! A do Afeganistão continuará mas, o Irão dos gatos e tapetes persas está a aparecer nos "cabeçalhos" das notícias (os tais head lines que dão jeito no Verão !) devido ao petróleo !


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