O Presidente Obama ao vencer há dias a primeira batalha do seu Plano de Saúde, na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, com uma maioria de apenas de 5 votos...
O Presidente Obama ao vencer há dias a primeira batalha do seu Plano de Saúde, na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, com uma maioria de apenas de 5 votos, não só confirma ao mundo que a sua eleição foi o reflexo de uma profunda transformação cultural e sociológica, de enorme importância mundial, que está a ocorrer nos Estados Unidos, como também reflecte a grande divisão em que se encontra hoje a sociedade norte-americana, de que são elucidativos exemplos as reacções completamente opostas da líder da Câmara Nancy Pelosi (que comparou a decisão à criação do sistema de saúde Medicare há 30 anos atrás) e a reacção da ex-candidata republicana a vice-presidente dos Estados Unidos Sarah Palin (que acha que nacionalizar o sistema de cuidados de saúde é um ponto de não retorno para a interferência governamental na vida dos cidadãos).
Sendo uma medida que irá custar cerca de 730 mil milhões de euros durante os próximos 10 anos - a financiar com um imposto de 5,4% aplicado às pessoas que ganham mais de 500 mil dólares e que prevê o alargamento dos cuidados de saúde a 96% da população norte-americana, abrangendo pela primeira vez 36 milhões de cidadãos que até agora não tinham acesso a qualquer seguro de saúde - a medida parece ir não só contra a opinião da maioria dos economistas liberais, por tal significar um aumento da carga tributária nos Estados Unidos, como ir também contra a tese de alguns prestigiados economistas europeus que, além de porem em causa a sustentabilidade futura do financiamento do modelo social europeu, consideram que uma das causas da falta de competitividade da economia europeia, relativamente à economia norte-americana, é a existência na Europa de um custoso sistema de saúde e de segurança social.
No momento em que se torna cada dia mais inquestionável que o modelo de desenvolvimento da sociedade do futuro terá de passar por uma maior sustentabilidade, quer ao nível ambiental, quer no domínio da redução das desigualdades sociais, a lição a tirar desta decisão nos Estados Unidos e da actual situação financeira do modelo social europeu é de que tenderá a haver, no futuro, uma convergência crescente entre o actual modelo liberal norte-americano, onde os serviços de assistência na saúde são um exclusivo das seguradoras privadas, e o actual formato europeu onde o Estado tem de evoluir cada vez mais para parcerias público-privadas, aumentando o papel do sector privado na cobertura dos cuidados de saúde e fomentando a complementaridade dos sistemas de reforma, sem perda da lógica da convergência, em ambos os modelos, de um sistema nacional de saúde de raiz pública.
Esperemos agora que o Senado - onde o Plano do Presidente Obama tem ainda de ser aprovado - não nos pregue a partida...
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Francisco Murteira Nabo, Bastonário da Ordem dos Economistas
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