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Inserir o cartão, digitar um código e receber dinheiro. A 2 de Setembro de 1985, Portugal despertou diferente.
Naquela manhã, o país estava no Rossio. Parecia ficção científica, coisa de Deus ou do Diabo. Olhares curiosos colados àquele pequeno ecrã a preto-e-branco. A saída das notas colhia espantos em todas as bocas. Uma máquina de dar dinheiro. O primeiro Caixa Automático Multibanco comemora 25 anos.
A 2 de Setembro de 1985, Sofia Aires Fernandes era demasiado pequena para perceber a surpresa que palpitava nas conversas dos adultos. Tinha apenas cinco anos, a atenção posta nas brincadeiras de menina. Mas bem se lembra, um tanto mais tarde, da Damaia, às portas de Lisboa, estrear o Multibanco. Saltava para o colo do pai só para ver melhor as notas de escudo saírem da ranhura. No começo, o milagre acontecia em 52 caixas, capazes de levantamentos, consulta de operações, requisição de livros de cheque. Hoje, contam-se quase 14 mil caixas automáticas e mais de 200 mil terminais de pagamento. Através do Multibanco é possível cumprir cerca de 60 funcionalidades, desde pagamentos de impostos, aquisição de bilhetes de comboio e até participar em campanhas de solidariedade.
Sempre vazia de dinheiro e cheia de cartões de banco, a carteira de Sofia fala como espelho mágico: "Pertenço à geração Multibanco". Fez-se mulher a ver o sistema espigar, nem imagina a vida sem dinheiro de plástico. O balcão do banco soa-lhe a antiguidade, conta de uma assentada as vezes que cruzou o umbral da porta e se dirigiu a um funcionário: "Uma vez para abrir conta, outra para tratar do empréstimo da casa". Raro é o dia em que não se aproxima de uma caixa automática, é lá que tira o pulso às finanças e paga contas. Está sentada numa esplanada à beira Tejo, o olhar no compasso do sorriso: "Ficar sem Multibanco seria tão caótico como deixar de ter telefone". Farmacêutica de profissão, não encontra remédio para tal cenário: "Para a nossa sociedade seria um caos". Bem junto ao Bilhete de Identidade, traz sempre quatro cartões e a certeza de não ser excepção. Nos últimos 25 anos, o uso do cartão de débito democratizou-se. A SIBS, empresa que promove a cooperação interbancária no que respeita a pagamentos e o desenvolvimento dos sistemas electrónicos, dá-lhe razão: há mais de 19 milhões de cartões, quase dois por cada cidadão registado em Portugal.
Naquele Setembro de 1985, os bancos pouco cartão passavam. A peregrinação às caixas automáticas era mais para ver do que para usar. O país andava a entranhar inovações, o calendário era de mudança. Ainda em Junho, no Mosteiro dos Jerónimos, Mário Soares assinara o Tratado de Adesão à CEE. Em Setembro, foi a vez da máquina de dar dinheiro e da inauguração das Amoreiras, a maior superfície comercial até então conhecida. No mês seguinte, apesar do surpreendente resultado do PRD, Cavaco Silva estreava-se em São Bento. Os fundos da Europa começavam a desaguar. De repente, os tempos modernos chegavam ao canto mais ocidental do velho continente. Manuel Villaverde Cabral, historiador e sociólogo, traz essa época gravada na memória. Um dia, pasmado com as alterações inscritas na sociedade, pôs conversa com a funcionária de um supermercado: "Parece que as pessoas agora compram mais, não acha?". A resposta não tardou: "É por causa do Multibanco e das reformas [outra universalização recente]".
Passados 25 anos, o investigador mostra certezas: "O dinheiro de plástico foi um dos grandes lubrificantes da transformação da sociedade portuguesa de um modelo tradicional - com elevadíssimas taxas de poupança - para a modernidade económica, ou seja, para uma sociedade de consumo. Só nos falta a produção e a respectiva produtividade..." Sofia faz parte deste mundo, o dinheiro de plástico é aquele que mais usa. Ainda se lembra bem do seu primeiro cartão. Tinha 15 anos, uma conta para amealhar o dinheiro ganho no Natal e nos aniversários. Guardava-o na carteira de adolescente, à laia de passaporte para a idade adulta: "Fazia-me sentir crescida, com importância e responsabilidade". Está tão habituada ao cartão, que até esquece as notas. Volta e meia, estaciona o carro e não tem sequer moedas para o parquímetro. O pior mesmo é quando o sistema falha: "Uma vez, em Espanha, o cartão deixou de funcionar. O que me valeu é que ia com amigos que me emprestaram dinheiro".
A dependência do Multibanco é linha vincada no retrato dos dias de hoje - os portugueses cedo perceberam que facilita a vida e ajuda a poupar tempo. Diz a SIBS que, no primeiro semestre deste ano, realizaram-se mil milhões de transacções, correspondentes a mais de 45 mil milhões de euros. No mês passado, a utilização voltou a bater recordes ao assinalar 5, 8 milhões de operações por dia.
Inês Agostinho não entra nestas contas. Nunca na vida chegou perto de uma caixa automática, tão-pouco tem cartão Multibanco a luzir na carteira. Quando o sistema se estreou, já ela tinha 45 anos, amizade ganha com as gentes do balcão de Benfica, o bairro lisboeta onde assentou vida. Por essa altura, era educadora de infância, amealhava ordenado certo no final do mês. Não se entusiasmou com a novidade, algo lhe dizia que se experimentasse, não largaria: "Há coisas que passamos bem sem elas, mas que se conhecermos facilmente começam a fazer falta". Ainda há dias, ligaram-lhe de um banco a oferecer um cartão. Recusou com a resposta que há muito traz debaixo da língua: "Ora, deixe lá. Gosto de ir ao balcão". Está reformada, aprecia a conversa com os funcionários, a sensação de "dar trabalho a pessoas".
Sabe bem que vive "na era das máquinas", acha graça à Internet e não dispensa o telemóvel. As voltas do mundo não lhe causam estranheza, assegura por experiência própria que tudo muda num esfregar de olhos. Em rapariga, tinha trabalho na costura, namorado e casamento no horizonte. Ninguém imaginava que, aos 23 anos, se tornaria religiosa. Não usa hábito nem vive num convento, sempre que vai ao banco parece apenas mais uma reformada. Em rigor, não se rende à moda também por receio. Traz na ideia, as notícias dos muitos "gangues do Multibanco".
Aquele dia em que viu uma pessoa ser assaltada, segundos depois de levantar sustento: "Acho que é mais seguro só andar com pouco dinheiro na mala". Organiza a vida ao jeito antigo, de duas em duas semanas, enfrenta a fila e levanta o suficiente para as compras da casa: "Não quero ter cartão, é uma escolha".
O Multibanco chegou a Portugal mais tarde do que a outros países, mas está entre os sistemas mais desenvolvidos do mundo. Em 1987, surgiram os terminais de pagamento, que possibilitam o uso do cartão em estabelecimentos comerciais. "Verde, código, verde" tornou-se trilogia quotidiana. Talvez, por isso, Sofia muito se tenha admirado de, num restaurante com nome feito, ter ficado sem meio de pagar a conta: "É totalmente anacrónico não ter Multibanco". Apanha o cabelo claro, as ideias: "Só não utilizo o cartão, quando quero fazer operações que podem ser realizadas na Internet [através do Home Banking]". O tempo nunca se aquieta, o homem também não. Nos últimos 25 anos, o mundo mudou. Longe vai o tempo, em que as gentes temiam ser enganadas pelo engenho. Aquele dia, no Rossio, em que muitos garantiam estar um homem dentro da máquina.
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