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João Ferreira do Amaral

A redução dos salários

13/05/09 00:01 | João Ferreira do Amaral 



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Face ao aumento brutal da dívida externa portuguesa, já não é a primeira vez que surgem vozes a advogar a descida dos salários nominais como forma de fazer a nossa economia ganhar de novo competitividade...

Face ao aumento brutal da dívida externa portuguesa, já não é a primeira vez que surgem vozes a advogar a descida dos salários nominais como forma de fazer a nossa economia ganhar de novo competitividade e poder vir a reentrar num caminho de crescimento sustentável do ponto de vista da balança de pagamentos. Talvez a primeira proposta nesse sentido tenha sido a de um economista famoso, Olivier Blanchard, que, se não estou em erro, há três anos atrás fez precisamente essa sugestão. Outros têm entretanto vindo a propor o mesmo (mas neste grupo, ao contrário do que tem sido dito, não se inclui o dr. Silva Lopes, conforme o próprio já publicamente esclareceu).

Considero que a descida dos salários nominais, mesmo que fosse legalmente possível, seria uma má solução. Não só porque não resolveria o problema do desequilíbrio externo como porque iria provavelmente criar ou agravar outros desequilíbrios já existentes.

Em primeiro lugar, não seria solução. O problema básico da nossa economia, no que respeita às relações com o exterior, é que a nossa estrutura produtiva, devido em grande parte à adesão à moeda única, se especializou demasiado na produção de bens não transaccionáveis, já que a política de convergência nominal seguida para possibilitar a adesão tornou muito mais rendível a produção de bens não-transaccionáveis. E portanto o que há a fazer é dar incentivos que discriminem positivamente a produção de bens transaccionáveis e levem os empresários a investir na produção deste tipo de sectores, preterindo os não-transaccionáveis.

Ora uma redução geral de salários não iria fazer nada disto. As margens de lucro iriam aumentar para ambos os tipos de produção e portanto não haveria qualquer discriminação positiva para os transaccionáveis. Desta forma, os ganhos de competitividade que resultariam dos menores custos salariais seriam insuficientes, pois não seriam complementados pela obtenção de maior rendibilidade relativa dos sectores transaccionáveis face aos não-transaccionáveis.

Em segundo lugar, a descida dos salários poderia agravar ou criar novos desequilíbrios. Com efeito, dado o grande endividamento das famílias e das empresas, uma redução dos salários nominais iria provocar uma redução geral de preços que levaria as dívidas, em termos reais, a subirem e consequentemente a pôr em causa a solvência de muitas famílias e empresas. Sendo, além disso, a taxa de juro fixada pelo Banco Central Europeu, teríamos também um grande aumento da taxa de juro real.

Por outro lado, a redução dos salários iria originar também uma redução das receitas da Segurança Social, o que, ou faria surgir um saldo negativo no sistema, ou obrigaria a uma redução nominal das pensões de reforma. Dois caminhos que, pessoalmente, aconselharia a não trilhar.
____

João Ferreira do Amaral, Professor universitário




Comentários (14)

Manuel João, Almada | 13/05/09 21:07
Esta medida seria a pior de todas. Porque não reduzir a uma só , a reforma dos Politicos e dos gestores de empresas? Porque não pôr um tecto aos grandes salários e ás grandes reformas?
No ano passado houve gestores (edp), que receberam aumentos de 118% e não se queixaram...e estamos a falar em reduzir ordenados miseráveis...penso que seria o cãos...o fim dos politicos...seria uma revolução...
O Sr. Silva Lopes quantas reformas tem?


Cristo, Queluz | 13/05/09 19:40
Manter ou descer salários, eis a questão. O problema está numa variável importante, chamada HOMEM. Os que usufruem salários e outros rendimentos elevados, não estão na disposição de abdicar de uma parte dos seus rendimentos. Os que já têm salários baixos, muito menos e neste caso seria dramático. O que fazer então ? Esta é uma resposta que compete ao governo e só ao governo, é para isso que que é eleito. Quem são as passoas que estão no governo ? Filósofos não são de certeza . São pessoas que vivem do sistema e como tal, não estão dispostos a abdicar também dos seus privilégios. Assim fica-se num impasse.


NapoLeão, | 13/05/09 17:02
O camarada Silva Lopes defendeu a descida dos salários. Foi a voz da "sabedoria" de quem já está bem na vida, apesar de "cansado" no Montepio ! Desde que não desçam os salários dos nossos mui proditivos Deputados, Autarcas, Governador e Administradores do BdP, CTT, Galp, PT...tudo bem !


Ex-ISEGuiano, Groningen,Netherlands | 13/05/09 16:08
O que eu vejo e muitas queixas...mas o facto e: se as empresas nao arranjarem maneira de aumentar a sua competitividade Portugal esta perdido. Reducao de salarios tem o mesmo efeito que reducao dos impostos, e um paliativo. Uma reducao de salarios em 10% este ano, no longo prazo e irrelevante para a competitividade da empresa. O que e relevante e a componente tecnologica, nomeadamente melhoria dos processos de producao (incluindo melhoria do nivel de capital humano!)


João, Porto | 13/05/09 14:37
Quatro anos e meio de propaganda constante do governo do “menino de ouro do PS” (Dias Loureiro o disse) resultam num balanço miserável. Só perdemos lugares no ranking de desenvolvimento europeu; o desemprego vai para os 10% este ano; estamos hoje com uma dívida pública (87% do PIB em 2009 segundo a OCDE), um déficit orçamental (que vai ser, agora sim, superior a 6%) e um déficit comercial (23,3 mil milhões de euros em 2008) colossais; não há obra nenhuma relevante e consensual para apresentar; foram retirados direitos sociais; a recessão é mais grave do que na grande maioria dos países da zona Euro (facto largamente escamoteado); há desertificação do interior do país; já nem se fala da Agricultura ou do sector pesqueiro; agrava-se a desindustrialização do país; o IDE foi afinal inflacionado nestes 4 anos e meio pelo Banco de Portugal (na realidade decresceu e está a fugir de Portugal); a corrupção alastra, totalmente impune; a criminalidade disparou; etc. É caso para dizer que a imprensa de referência andou a dormir ou foi habilmente anestesiada por algum falso “engenheiro” ou por arreigados preconceitos ideológicos este tempo todo. Sejamos claros: Sócrates é um "bluff" mediático.


JCosta, Cairo | 13/05/09 13:49
Neolib/neocons, estouraram a economia, o povo em geral estava tudo convencido que eramos um pais rico, porque havia duas ou tres familias na lista da Forbes. Delirio subdesenvolvimentista. Baixar salarios e atirar o caos social para o meio das ruas.

O que e preciso e criminalizar essa gentalha que atirou o mundo para o caos economico e retirar lhes a influencia que, pornograficamente, continuam a deter; Agencias de rating, fundos sem rosto, comentaristas traficantes de influencia etc. Deixem os salarios em paz e nao canibalizem mais a classe media, que e o unico garante de sociedades socialmente modernas.


Realista, Porto | 13/05/09 10:20
O autor deste artigo pertence ao lobby dos economistas neoliberais que de vez em quando aparecem nos media a arengar contra os investimentos públicos, por causa do “endividamento externo”. Registo que o autor não defende a redução de salários. Uf, que alívio. Mas ainda assim….. O autor começa por referir (como de costume) o aumento brutal da dívida externa. A que se refere, concretamente? À dívida pública? Olhe que não é assim tão brutal. Há países bem pior (a Itália, Grécia, Irlanda, Bélgica, etc) e, com os recentes estímulos económicos por parte de alguns países, vai ver que ficamos a meio da tabela. Depois, sabe qual a parcela da dívida que é externa? É que há muitos certificados de aforro e obrigações detidos por portugueses. Está a pensar no deficit (crónico) nas contas com o exterior? Tem razão, mas porque pensa que a solução está só no incremento das exportações (ainda por cima de bens materiais)? Por que não actuar também nas importações, de petróleo, por exemplo, o grande causador do deficit, (com as barragens que os neolibs tanto odeiam), de produtos agrícolas (as políticas neolib deram cabo da agricultura), etc.? Por que não apostar mais no desenvolvimento do interior (que as políticas neolib têm desertificado) em vez das Qimondas e componentes automóvel?


bm, | 13/05/09 09:19
A questão em Portugal e em boa parte do mundo está em que 2% da população tem 90% dos rendimentos, e isso é que está a causar o caos. Se o dinheiro fosse bem dividido as coisas estavam bem melhor.
Um raciocinio simples: acham que um multimilionario come por 1000pessoas? que compra carros por 1000 pessoas? que compra casas por 1000 pessoas?
É preciso é classe média, que em Portugal está a ser perseguida e roubada por um Estado guloso e clientelista, e isto independentemente dos partidos: PS, PSD, PP, BE, PCP... todos mamões..


LOPES CARLOS, Bruxelas | 13/05/09 08:45
É a produtividade/competitividade internacional que fixa o nivel dos salarios.
Salarios artificiais só provocam falencias e desemprego.


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