Quando era um ainda muito jovem economista fiz um curso de formação numa multinacional francesa, em que se procurava ensinar qual o ponto a partir do qual uma multinacional devia transferir um centro operacional de um país para outro ou, em alternativa, encerrar esse mesmo centro operacional pelo facto dessa unidade empresarial não ser mais viável nesse país.
Hoje chama-se a isso o ponto a partir do qual se deve deslocalizar uma unidade empresarial, por o seu desenvolvimento já não obedecer aos princípios da rentabilidade mínima e do necessário equilíbrio financeiro a longo prazo. Recordo-me que eram então definidas três regras fundamentais, cuja não verificação simultânea a longo prazo, daria origem a um processo de transferência ou encerramento:
a) o crescimento das vendas tem de ser igual ou superior ao crescimento do sector onde a unidade está inserida;
b) a taxa interna de rentabilidade tem de ser igual ou superior à taxa de juro do financiamento a longo prazo;
c) a dívida da unidade não deve (em regra) exceder três meses do volume anual de vendas, ou seja 25% da facturação anual.
Se procurarmos adaptar este modelo à economia portuguesa será fácil concluir que nos últimos 15 anos:
a) o nosso crescimento tem sido inferior ao crescimento da economia onde nos encontramos inseridos, a economia europeia;
b) o valor criado no país não tem sido suficiente para financiar a política de distribuição prosseguida, não gerando liquidez que permita pagar os financiamentos contraídos, quer internos, quer externos;
c) a nossa dívida é igual ou superior a 100% da nossa facturação (PIB)
Ou seja, não cumprindo as três regras do modelo, o país tem vindo a perder competitividade, a caminhar sem equilíbrio financeiro, encontrando-se por isso altamente endividado.
Procurando aplicar o mesmo modelo poderá questionar-se: como resolver a situação no futuro, dado que o país não se poderá obviamente deslocalizar ou encerrar? A resposta a meu ver será:
a) crescer a uma taxa superior à taxa de crescimento europeu, centrando o crescimento mais nos países emergentes do que na Europa, em particular no espaço da lusofonia;
b) aumentar o peso da tecnologia e da mão-de-obra qualificada no nosso VAB e o nosso potencial de exportação, ajustando progressivamente o nosso modelo de distribuição à capacidade de riqueza criada;
c) trazer as dívidas pública e externa para valores bastante inferiores ao PIB, reduzindo a despesa pública e melhorando as nossas balanças comercial e externa.
O programa da ‘troika' e o Orçamento para 2012 não preenchem os requisitos para que o desenvolvimento seja equilibrado e sustentado, porque a meu ver não respondem à questão económica.
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Francisco Murteira Nabo, Economista
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