A PT continua sob o regime especial da ‘nacionalização temporária’. É esta a mais importante, e trágica, conclusão da decisão da Telefónica de retirar a oferta de 7,15 mil milhões de euros sobre os 50% que a PT tem na Vivo.
Porquê? Porque a administração da empresa portuguesa continua a (não) decidir um negócio - e é disso que estamos a falar, de um projecto empresarial de telecomunicações - por razões políticas e não por razões económico-financeiras. Se queriam motivos para uma comissão de inquérito, esta sim importante e relevante, aí têm um.
Há uma expressão que sintetiza, na perfeição, o que se está a passar na PT: ‘a política destrói valor'. Sim, a política, essa actividade nobre, a mais nobre de todas, que é, por vezes, utilizada com outros fins. Menos nobres. E, provavelmente, essa destruição de valor vai começar a ser medida, já hoje, em bolsa, pela evolução das acções da PT. Exemplo: um ministro, Silva Pereira, fala, após um conselho de ministros, sobre um negócio que está a ser discutido, ao mesmo tempo, em conselho de administração da PT, para condicionar uma decisão que, diz ele próprio, é dessa administração.
Na sexta-feira, depois de mais um conselho de administração iniciado no dia anterior, a PT não conseguiu dar uma resposta à oferta da Telefónica. A empresa liderada por Henrique Granadeiro e Zeinal Bava pediu mais 12 dias para negociar, mas, do que se sabe, e não foi desmentido, a Telefónica estaria até disponível para pagar mais dinheiro. Não foi suficiente, não se sabe porquê.
Sabe-se que, às tantas, já não estamos a falar de um negócio e suspeita-se que qualquer que fosse o preço oferecido, não seria aceite. Não é um ponto de partida razoável. A Telefónica ‘fartou-se' dos portugueses. Verdade seja dita, a Telefónica geriu este dossiê, literalmente, com os pés, mas sem a habilidade dos jogadores espanhóis que ganharam o campeonato do mundo de futebol. Acreditaram que estavam a negociar com uma empresa de um País de terceiro mundo. E desvalorizaram a força da opinião pública que, não percebendo nada do que está em causa, percebe uma coisa muito simples: vender aos espanhóis é igual a perder para os espanhóis. Isso foi, também, o que percebeu José Sócrates. Que levou a guerra ao limite, e ultrapassou-o. A corda partiu. E todos perdem, especialmente a empresa e quem nela investiu. E o País e o interesse estratégico que o Governo quer defender.
Agora, como é que vai ser o futuro: há, já, várias conclusões a retirar. A relação entre os accionistas de referência da PT, públicos e privados, está ferida de morte e vai ser, como com a Telefónica, um casamento de conveniência; a PT vai passar por uma situação de impasse e veremos durante quanto tempo, dependendo da guerra jurídica que vier a ser aberta pela Telefónica; E o primeiro-ministro vai ter de continuar a mandar na PT, até tudo isto acabar, e arranjar uma solução. Depois, espera-se, venha, enfim, o fim da golden-share. E o futuro da PT.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt
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