Segundo o “Diário Económico” de ontem, existem neste momento mais seguranças privados em Portugal do que o efectivo conjunto das várias forças policiais.
Aos 51 mil membros do quadro das forças policiais do Estado, acrescentam-se 58 mil agentes de segurança privada.
Estes números são muito expressivos: há um total de 109 mil indivíduos em Portugal que se dedicam ao trabalho quotidiano da segurança, aos quais, em boa verdade, devemos ainda acrescentar o número total de elementos das Forças Armadas que, neste momento, estará ligeiramente abaixo dos 20 mil. As Forças Armadas também devem ser contabilizadas porque constituem o último recurso da segurança garantida pelo Estado. Assim, haverá neste momento em Portugal um número total 129 mil indivíduos cuja única função é a de garantir a segurança de pessoas e bens.
Em termos comparativos com outros países europeus estes números são muito elevados. É sempre interessante cotejar o caso português com os países mais desenvolvidos e igualitários do norte da Europa. A Suécia, por exemplo, que tem aproximadamente o mesmo número de habitantes que Portugal (mas um território bem mais extenso), tem menos de metade dos polícias e seguranças privados e tem também menos membros das Forças Armadas no activo. Mas quando comparamos a percepção que os suecos têm da segurança na sua vida quotidiana, aquilo que se verifica é que a maioria sente que vive em segurança, enquanto os portugueses têm um crescente sentimento de insegurança. É possível estabelecer comparações semelhantes com outros países europeus.
Se não me engano, a crise a as medidas de austeridade em vigor vão agravar a tendência para o crescente sentimento de insegurança dos portugueses, assim como para o aumento do número total de profissionais dedicados à segurança. Isso deve-se ao impacto assimétrico da austeridade. Ela está a tornar o país ainda mais pobre (em termos de pobreza relativa e não apenas de PIB per capita) e também mais desigual, acentuando a separação entre os extremos dos rendimentos mais elevados e dos rendimentos mais baixos, assim como a desigualdade transversal a todos os rendimentos. Uma sociedade mais pobre e desigual, menos coesa, é também uma sociedade mais insegura (em termos subjectivos e objectivos) e, nesse contexto, não há forças de segurança, públicas ou privadas, que nos valham.
É certo que estamos ainda longe da situação do Brasil ou da África do Sul. Mas a tendência da sociedade portuguesa parece ser a mesma: a procura de uma segurança ilusória através do aumento do número dos que a ela se dedicam, ao mesmo tempo que são cavados os desequilíbrios socias que constituem a causa do aumento da insegurança.
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João Cardoso Rosas, Professor Universitário
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