Longe de se tratar de uma epopeia progressista, a ascensão de Obama é um poderoso testemunho da força libertadora da religião.
A inauguração da 44ª presidência tem uma importância e um carácter simbólico invulgares na história política americana. Paradoxalmente, depois da campanha eleitoral mais cara e prolongada de sempre, poucos mandatos se terão iniciado com tantas dúvidas sobre a identidade política do novo presidente e a orientação que pretende conferir ao executivo. A investidura presidencial promete ser o advento de uma Primavera governativa, num mundo que emerge de um longo e sombrio Inverno, mas que espécie de Primavera?
Parte da esquerda Democrata imagina que se trata de uma Primavera à Stravinsky: em clara ruptura com o passado. Com a história recente de erros e ambição imperial que associam aos dois mandatos de George W. Bush, e com a história de escravatura, numa espécie de remissão simbólica do pecado nacional, anunciando uma América pós-racial, cosmopolita e irreligiosa. Mas esta interpretação dos resultados eleitorais é uma ficção auto-complacente, de uma esquerda que gosta de se imaginar sempre do lado "certo" da história.
Há em Obama um desejo inegável de regeneração, de reaproximação ao ideal democrático inspirado em Jefferson. Mas esse desejo não se assemelha em nada à derrota do evangelismo político e ao triunfo do racionalismo. Aliás, em alguns pontos decisivos, Obama é tudo aquilo que os Democratas declararam indesejável, ou simplesmente impossível. Leia-se a melhor apologia política de Obama: The American Future -A History (The Bodley Head, 2008), de Simon Schama, que percorreu a América no ano que antecedeu a eleição presidencial. Numa grande narrativa feita de pequenas histórias, algumas das quais são notáveis biografias, Schama prescinde da linearidade cronológica para ligar a visão do futuro político dos EUA protagonizada por Obama ao passado histórico e aos grandes temas políticos do presente: a guerra, a identidade, a religião, a economia e o ambiente. Longe de se tratar de uma epopeia progressista de emancipação, a ascensão de Obama é um poderoso testemunho da força libertadora da religião. As suas origens estão no fervor dos abolicionistas evangélicos do século XIX como Charles G. Finney, e na convicção religiosa dos líderes integracionistas negros da década de 60, como Fannie Lou Hamer, que viu o seu direito de voto negado pelos congressistas do partido Democrata na convenção de 1964. Tal como Schama argumenta, a porta fechada pelos Democratas à integração política dos negros levou directamente à violência estéril dos Black Panthers e de Malcolm X. Se alguns Democratas não negassem ideologicamente a importância da religião na política de Obama dispensar-se-iam à triste figura de criticar a presença do pastor Rick Warren na cerimónia inaugural; se compreendessem a ligação mística de Obama ao passado não estranhariam o uso da bíblia de Lincoln.
Pelo seu lado, parte da direita Republicana imagina que se tratará de uma Primavera à Botticelli: uma renovação na continuidade. Se a esquerda ganhou a eleição de Novembro, a direita anuncia agora que ganhará a governação. Como evidência de suporte apresenta as "Três Graças" -Volcker, Gates e Summers- nomeações que sugerem uma governação sem rupturas na política externa e orientada pelas virtudes fundamentais da sabedoria, coragem e temperança. Mas se a esquerda se sente desconfortável com a herança histórica e o carácter religioso de Obama, a direita subestima perigosamente o seu desejo de transformação. Tal como no quadro de Botticelli, onde a história que acontece em fundo é muito diferente da que se desenrola em primeiro plano, também algumas nomeações menos mediáticas de Obama sugerem a possibilidade de uma transformação radical do carácter político e constitucional norte-americano.
É o caso de Tom Daschle, nomeado secretário da Saúde e que pretende nacionalizar os serviços de saúde. A despesa dos EUA com cuidados de saúde atingirá 25% do PIB em 2025, se continuar a crescer ao ritmo actual. Um serviço público de saúde implicaria um crescimento ainda maior da despesa e um aumento brutal e permanente dos impostos. É o caso de Hilda Solis, nomeada secretária do Trabalho e que gostaria de erguer uma muralha de subsídios proteccionistas em torno das indústrias americanas com maior peso sindical, o que causaria danos irreparáveis ao comércio internacional, a única forma de recuperação da recessão económica actual. Até agora, Obama foi um ecrã onde o mundo projectou esperanças e desejos. Chegou o momento do ecrã devolver a imagem política desses desejos. Esperemos que esteja à altura do desafio, e que Deus o ajude, como é de tradição.
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Fernando Gabriel, Investigador universitário
Comentários (3)
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Só não percibi como a 'força libertadora da religião' não se manifestou no mandato do hiperreligioso Bush nem se manifesta nos países árabes profundamente religiosos. A Fé é um Dom, pelos vistos serve para justificar qualquer coisa e o seu contrário. Que Deus lhe perdoe!
A realidade não vai ser tão bela como doce loura de Botticelli.Àparte o proteccionismo, o "inexperiente" Obama vai ter os Kennedy e os Clinton à ilharga , a significar que,depois daquele bilião que recolheu para a campanha ,tudo como dantes
Como dizia um amigo meu , o Sr.Fernando Gabriel é uma pessoa avisada.