Isabel dos Santos já tem luz verde do Banco de Portugal para oficializar a compra de cerca de 10% do BPI ao La Caixa e, assim, tornar-se a segunda maior accionista do banco, a seguir aos espanhóis, que controlam cerca de 30% do capital .
É o início de uma nova vida no BPI, e um novo ciclo, recapitalizado, que vai pôr à prova a unidade do BPI e da sua gestão, isto é, da ‘nova' estrutura accionista em torno de Fernando Ulrich.
A história do BPI, é preciso recordá-la, foi fundada e desenvolvida em torno de um homem - Artur Santos Silva - e três accionistas de referência, estrangeiros, e que demonstraram, sempre, uma unidade e coerência na estratégia, particularmente os espanhóis do La Caixa e os brasileiros do Itaú. A convivência foi de convergência e, mesmo quando o Itaú começou a dar sinais de que já estava de partida, a tradicional unidade em torno da gestão foi mantida, já com Fernando Ulrich. O divórcio, esperado, seria amigável. Mas a entrada de Isabel dos Santos mudou as regras do jogo, por várias razões.
O BPI, como de resto a banca portuguesa de forma generalizada, começou a perder rentabilidade no mercado doméstico e cedo percebeu que o seu futuro estaria intimamente ligado a Angola e ao BFA. Isabel dos Santos é a sócia do BPI em Angola e, logo, controla uma parte significativa do negócio. Fazia sentido, para Isabel dos Santos, entrar no capital do BPI em Lisboa, e foi isso que fez, com o beneplácito da gestão, que valorizou aquela participação.
Ulrich percebeu que estava em jogo o futuro accionista do banco - e o seu próprio futuro. Porque a saída do Itaú implicava a transformação do BPI em La Caixa BPI, figurino que Ulrich, obviamente, rejeita, porque põe em causa a natureza independente do banco, porque corresponderia, eventualmente, à sua saída do projecto. O alinhamento com Angola não só era óbvio, era necessário.
A história recente da saída do Itaú do capital do BPI, percebe-se, ainda não está contada, e provavelmente não será conhecida de mais do que uma meia dúzia de pessoas. A venda de cerca de 20% do capital dos brasileiros ao La Caixa e a posterior venda de menos de 10% a Isabel dos Santos diz-nos mais do que todas as declarações, que foram nenhumas, sobre este negócio. Os espanhóis compraram a posição a antecipar uma transformação do BPI em La Caixa BPI, mas esqueceram-se de Isabel dos Santos, o que revela que a conhecem mal. Já o reforço da posição dos angolanos mostra que cedo fez saber ao La Caixa que estavam equivocados sobre as suas intenções.
O BPI deixou de viver num casamento de amor para passar a um casamento de conveniência, em regime de comunhão de adquiridos. Os dois accionistas de referência sabem que precisam um do outro, por razões diferentes, mas os seus projectos, a prazo, são diferentes. E é aqui que entra Fernando Ulrich.
O presidente executivo do BPI também conhece as intenções e os objectivos dos seus accionistas, agora e no futuro. O_seu silêncio aquando das mudanças accionistas dos últimos meses foi, aliás, ensurdecedor e revelador do que está em causa. Ulrich vai gerir um banco que tem como principal objectivo devolver ao Estado, rapidamente, os 1200 milhões de euros que pediu emprestado para cumprir os rácios de capital exigidos e tem, ao mesmo tempo, que preparar a opção sobre um futuro angolano ou espanhol que, mais cedo ou mais tarde, se vai colocar ao banco.
António costa, Director
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