A presidência do Banco Central Europeu é uma matéria sobre a qual tomaremos uma posição mais tarde. Veremos então que cartas continuam em cima da mesa. Angela Merkel, NDR Info Radio
Para compreender o próximo passo estratégico de Angela Merkel é essencial familiarizarmo-nos com a narrativa alemã sobre a crise na zona euro: irresponsabilidade orçamental e ausência de competitividade. Existe uma crise bancária, mas isso não é central, porém, é precisamente essa crise que a União Europeia procura resolver neste momento.
Uma versão alternativa, popular entre os círculos de conservadores eurofóbicos em Berlim, é que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira simboliza a renúncia da Alemanha à soberania nacional. O título do jornal de referência dos conservadores alemães, Frankfurt Allgemeine Zeitung, por ocasião da cimeira realizada em Deauville no Outono passado, sintetiza a capitulação de Merkel perante a França de Sarkozy: "Europa rumo a uma união de transferência".
Pior. Grande parte dos alemães acredita que a união de transferência já é uma realidade. Para os media alemães, e no que à crise diz respeito, o seu país está muito simplesmente "a deitar dinheiro à rua". A narrativa alemã é uma mentira assente no seguinte pressuposto: uma união monetária pode ser sustentada por um simples conjunto de regras de política monetária e orçamental; a regulação financeira e os desequilíbrios da balança de transacções correntes não são relevantes. A crise na zona euro veio provar o contrário, mas os conservadores preferem manter-se fiéis à sua velha "doutrina": se rebentar uma crise, esta é forçosamente orçamental e combate-se com austeridade.
A nomeação de um banqueiro central alemão para a presidência do Banco Central Europeu (BCE), Axel Weber, simbolizaria o domínio alemão do sistema, mas o facto de se ter retirado da corrida dificulta a vida à chanceler alemã. Merkel não pode regressar da cimeira europeia de Março sem um pacto robusto para a competitividade e com Mario Draghi como novo presidente do BCE. O governador do Banco de Itália pura e simplesmente não é "vendável" perante os alemães no contexto de uma narrativa xenófoba que culpa essencialmente a Europa do Sul.
Merkel, na declaração transcrita no início do texto, sugere que a sua flexibilidade face a Draghi está directamente ligada ao acordo que poderá obter em Março. Na sua perspectiva, o que pode ser um bom acordo? Face à sua narrativa da crise, o mínimo que precisa é de um compromisso sólido ao nível da redução da dívida pública.
O que pode acontecer se Merkel não conseguir negociar um bom acordo? Será que vai vetar a nomeação de Draghi ou está apenas a fazer ‘bluff'? Não imagino o que fará o governo italiano se o seu candidato for rejeitado por motivos puramente xenófobos - a única interpretação possível para a rejeição de Draghi.
Eis o desfecho provável: um pacto para combater a crise errada que será vetado ou distorcido; uma estratégia para resolver a crise bancária sem qualquer credibilidade; um presidente do BCE de terceira linha e a coordenação bicéfala (França e Alemanha) das políticas europeias.
Tradução de Ana Pina
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Wolfgang Münchau, Editor associado do "Financial Times"
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