Tem sido moda recente o ataque a alguns dos pressupostos teóricos da chamada “terceira-via” por parte de determinados dirigentes socialistas, afirmando categoricamente que a mesma “morreu”.
Pois bem, aparte das apreciações tácticas que evidenciam que o propósito de tais declarações é a obtenção de protagonismo fácil e ocupação de paragonas dos jornais, julgo absolutamente redundantes e fora de tempo tais depoimentos. Não só porque a terceira-via há muito que morreu (se é que alguma vez chegou a existir fora do Reino Unido de Tony Blair e, em alguma medida, da Alemanha de Gerhard Schröeder) mas essencialmente porque tais declarações provam, uma vez mais, a incapacidade dos socialistas entenderem, a tempo, o mundo que os rodeia, preocupados que parecem estar apenas com as suas carreiras partidárias e lutas bacocas por protagonismos mediáticos.
A meu ver, o principal problema da chamada "terceira-via" não foi a incapacidade de ser aplicada fora de espaços políticos com elevado nível de desenvolvimento social e económico, ou mesmo o papel que desempenhou (indirectamente) na conquista do espaço cultural e político por parte do discurso neo-liberal (e conservador).
Foi antes a nefasta influência que produziu nos processos de transição a Leste, verificável na incapacidade de existência de projectos políticos sociais-democratas fora do espaço da antiga CEE e no domínio quase absoluto do paradigma liberal do panorama político-partidário dos países antes pertencentes ao Pacto de Varsóvia e da zona Balcânica. Ora se no ano 2000 tal constatação mantinha válida a divisão maniqueísta da Europa (entre Este e Oeste), hoje, num cenário de alargamento do espaço da União aos seus correntes 27 membros, a verificação de que parte importante da UE vive sem alternativa social-democrata é alarmante e preocupante, se entendermos como essencial a necessidade de alteração de paradigma político dominante ao nível das instâncias europeias.
Neste sentido, mais premente que anunciar com alarme a "morte" de modelos políticos há muito desaparecidos é procurar apurar as consequências para o projecto europeu a médio-longo prazo da influência prática da "terceiras-via", saber criticar os resultados das últimas governações socialistas, procurar entender as características das novas vagas de protesto social (europeu) e, essencialmente, sabê-las enquadrar num projecto progressista alternativo, alargado e plural, liderado por uma nova geração de políticos socialistas, de preferência sem ligações aos legados governativos (ou partidários) da última década.
Neste ponto, é muito infeliz que sejam ex-bardos do socratismo os que agora clamam por "viragens à esquerda" e se apresentem como porta-estandartes da "nova vaga socialista", categoria para a qual nunca contribuíram enquanto se enquadraram no sistema que governou o país até ao ano passado. Apraz dizer antes que a 3ª via que morreu é a que se encontra entre a defesa do legado dos governos de José Sócrates e a oposição à actual direcção nacional do PS, e não o projecto idealizado por Blair e Clinton, e depois mal copiado por Guterres e Sócrates.
José Reis Santos, Historiador
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