Começou por ser apenas um conto, uma sátira aos populares sanatórios suíços onde se tratava a tuberculose. Mas, à medida que foi escrevendo, Thomas Mann acabou por transformar o livro numa longa metáfora da Europa no arranque do século passado.
O sanatório era uma miniatura do velho continente, povoado por várias personagens que se distinguiam pelos seus problemas, tendências e formas de agir que marcaram um período de anos loucos. Liberais e conservadores cruzavam-se assim numa espécie de viagem pela decadência europeia em ambiente de pré-guerra, mas também numa busca por um novo conceito, um novo modelo - uma nova Europa.
A montanha da história é em Davos, exactamente a mesma onde, desde ontem, a elite política e económica se reúne no Fórum Económico Mundial, não num sanatório, mas numa estância de luxo nos Alpes suíços. E, como na história de Mann, também agora se discutem modelos de governação e soluções para o nó cego em que a economia e a sociedade se enrolaram. Só que o problema a tratar agora não é pulmonar, é de paralisia: dos mercados, das políticas, das lideranças. O tema do encontro, aliás, resume tudo: "A grande transformação: dar forma a novos modelos". Mas hoje, em Davos, o ar da montanha não inspira magia - é pessimismo que se respira. Angela Merkel voltou a admitir que a crise está longe do fim e insiste que, enquanto houver pedidos de resgate financeiro, a confiança dos mercados continuará minada. Christine Lagarde lamenta que a redução dos défices não chegue para resolver a crise da dívida e volta a apelar aos países para que protejam o crescimento. Pelo meio, mais sinais preocupantes: apenas 15% dos executivos em todo o mundo acreditam que a economia global cresça este ano e quase 50% suspeitam mesmo que haverá um recuo. Ainda sem soluções à vista, a chanceler alemã relançou ontem a questão em Davos: "Atrevemo-nos a mais Europa?", perguntou, lamentando a falta de estruturas políticas e num apelo claro aos Estados-membros para que cedam mais competências a Bruxelas. A fraqueza da União Europeia, contudo, não está tanto na falta de estruturas políticas - está, isso sim, na forma algo desastrada e muito individualizada como têm sido geridas. E é nisso que os líderes precisam de se concentrar rapidamente: em descobrir um modelo de liderança e de governação capaz de tornar a Europa num bloco sólido e à prova de avalanches. É isso ou a economia europeia acabará desmoronada na base da montanha.
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Helena Cristina Coelho, Subdirectora
helena.coelho@economico.pt
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