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José Manuel Fonseca

A minha geração

09/06/09 00:05 | José Manuel Fonseca 



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A minha geração está agora no poder. Entreteve-se em meados da década de setenta a discutir politica com um entusiasmo pueril, tipicamente adolescente, cheio de certezas e absolutos imperativos incontornáveis e inexoráveis.

Participou em RGA loucas e exuberantes, colocando tudo em questão, construindo futuros imaginários inadiáveis e inelutáveis.

A minha geração respirou a explosão do ar da liberdade sem verdadeiramente conhecer o cheiro fétido do medo de pensar e safou-se da guerra. A minha geração fazia directas na praia à luz da fogueira e de sonhos generosos discutindo filmes de Tarkovsky e as obras de Milan Kundera.

A minha geração descobriu o inter-rail, andou pelos campos e pelas cidades vivendo sem barreiras e quase sem limites.

A minha geração experimentou quase tudo o que havia para experimentar. Mas a minha geração envelheceu. É como aqueles pêssegos descongelados nas prateleiras dos supermercado. Era brilhante e radiosa. Mas quando chegou a casa já estava definhada. Macilenta e sem fulgor.

A minha geração rendeu-se. Ao dinheiro, ao estatuto, à fama, à capa de revista em que se anuncia ao mundo que se planeia um divórcio ou que se vai repuxar centímetro e meio de pele no focinho. Ao óbvio, ao pragmatismo, ao ‘leasing' da mota, ao silêncio.

A minha geração entregou-se. Vive de memórias do que poderia ter sido. A minha geração que tudo questionava aceita agora o absurdo como estado natural.

A minha geração "tuita" imenso com uma raiva instantânea quando uma pessoa tem um filho queimado e tem de ir com ele para Espanha, porque aqui há armazéns com aviões de combate no valor de milhões e milhões e milhões de euros encaixotados há anos mas não há um sitio para tratar crianças queimadas. Aliviando a consciência, a minha geração rendeu-se.

A minha geração que produziu motins por segundas chamadas de exame fica agora impotente perante os concursos de promoção que já toda a gente sabe antecipadamente qual o resultado.

A minha geração que discutia as letras do Lamb Lies Down on Broadway como se a seta do tempo dependesse da exegese, consome agora doses cavalares de imbecilidade televisionada a que constitucionalmente temos todo o direito.

A minha geração que era inconveniente e comentava alto durante as sessões de cinema e levava a casa abaixo de riso, assiste agora sem reacção às nomeações de afilhados do jardineiro da cunhada do gajo da concelhia para directores do centro cultural de Alguidares de Centro.
A minha geração que prometia solenemente mudar o mundo, muda de camisa para ir assistir ao lançamento da primeira pedra da empresa presidida por um ex futuro deputado que enquanto foi subsecretário de estado a ajudou a criar facilitando tudo e um par de botas.

A minha geração que repudiava como heresia e pecado inominável a falta de honestidade comprou uma casa na falésia com desconto da sisa mas dando de vez em quando um donativo para a Liga de Protecção das Minhocas em Extinção.

A minha geração envelheceu. Amadureceu e tornou-se igual a todas as outras que capitularam perante o "fado". Não há nada de especial na minha geração. Vai a Bruxelas e tem casas de cinco assoalhadas com estacionamento e ‘jacuzzi'. Acomodou-se. Vai a despacho.

A minha geração aprendeu que o respeitinho é muito bonito. A minha geração acotovela-se para aparecer na TV atrás do senhor ministro enquanto ele diz coisas com ar grave e advérbios de modo.

A minha geração tornou-se numa força incontornável de amanuenses venerandos e realistas. Eu sou da minha geração. Mas não tenho orgulho nisso.
____

José Manuel Fonseca, Professor universitário e membro do painel "Discutir a Gestão"

 




Comentários (2)

F Vogado, Caldas da Rainha | 09/06/09 13:08
O óbvio, parece começar a "preocupar" aqueles que sendo desta geração, estão concluindo que, o que fizeram, o que reclamaram, as manifestações que promoveram, foi apenas a parte "fácil" desta vida.

O dificl é construir pela positiva! É ser determinado, com ideias, com convicções e capacidade de olhar em frente e decidir! E destes a história tem muito poucos a quem tiramos o chapéu.

É bom, ouvir ou ler estas reflexões. Elas devem contudo ser consequentes, pois caso contrário esta geração, será a mesma que a próxima, tal como já foi a anterior.

O mundo, constroi-se na ordem, na disciplina, no respeito, na solidariedade e não na hipocrisia ou nas falsas sensibilidades. Tão importante como a palavra é a coragem de assumir o que se diz, o que se faz; estar preparado para assumir a causa publica, não é sinonimo de ser simpático, de ter um discurso fluído; estar no poder muito tempo, também não é sintoma de estar a tomar as decisões correctas!

A participação, o confronto, a coragem, a humildade, o saber ouvir, são atitudes, que nos enobrecem. A história, faz o seu julgamento, passadas algumas décadas dos acontecimentos; nós hoje vivemos, para o "fast-vida", fast-prazer, fast-tudo!

Há aqui uma contradição, não há? Ainda vamos a tempo, se quisermos de corrigir esta forma de vida!

Obrigado pela reflexão! Deixou-me de facto a pensar.



Paulo Calvo, | 09/06/09 12:11
The older I get, the beter I was.
Eramos tão bons! Tão supinamente inteligentes! Falávamos tão bem! E faziamos pouco.
E continuámos a falar e a pouco fazer.
Agora estamos ficando pesados e com as veias entupidas.
E o mundo que deixamos aos nossos filhos?
Somos tão cobardes, não somos?


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