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Vital Moreira

A maldição do TGV

17/06/09 00:02 | Vital Moreira 



Foi sempre assim (...) em Portugal. Fora os períodos de ditadura (...), nunca nenhuma grande obra pública deixou de suscitar entre nós controvérsias e resistências mais ou menos generalizadas.

Foi sempre assim, e provavelmente sempre assim será em Portugal. Fora os períodos de ditadura, em que a discussão está por definição cancelada, nunca nenhuma grande obra pública deixou de suscitar entre nós controvérsias e resistências mais ou menos generalizadas.

Só para lembrar as últimas décadas, assim sucedeu com a barragem de Alqueva, com a rede de auto-estradas, com a segunda travessia do Tejo em Lisboa, com o novo aeroporto de Lisboa, agora com a rede ferroviária de alta velocidade (conhecida vulgarmente pela sigla francesa, TGV). Parece que no caso da rede ferroviária existe uma espécie de maldição, pois já há um século e meio, quando Portugal avançou, com décadas de atraso, para o lançamento da primeira via férrea, também se levantou uma onda de protestos, onde alinharam mesmo alguns dos espíritos mais lúcidos da época, como, por exemplo, Alexandre Herculano.

Há neste país um fundo de conservadorismo atávico, que resiste a todo o processo de modernização tanto mental como material, como sucede com as infra-estruturas. Só uma forte dose de voluntarismo político consegue superar as dificuldades e as oposições. Sem esses raros surtos de voluntarismo modernizador nenhuma das referidas grandes obras públicas teria vingado e Portugal permaneceria seguramente muito mais atrasado do que está hoje, sem mesmo aproveitar as poucas potencialidades que a natureza lhe ofereceu. Veja-se o que se passou com o atraso de décadas na realização do aproveitamento do Alqueva no Rio Guadiana, que está em vias de ser um grande sucesso para fins de abastecimento de água, de irrigação agrícola, de produção de energia eléctrica e, por último, para fins turísticos.

Infelizmente, os exemplos passados parecem não servir de nenhuma lição para o presente. A cada novo projecto renovam-se as oposições e as resistências. O que espanta nestas polémicas é a combinação do oportunismo político com a irracionalidade e o populismo, jogando com a ignorância e com o medo em relação ao futuro, mesmo quando os estudos mais cautelosos asseguram a viabilidade financeira dos empreendimentos e os seus benefícios económicos e sociais a longo prazo. O novo argumento conservador é o da "sobrecarga sobre as gerações futuras", como se não fosse justo que elas compartilhassem dos custos das infra-estruturas de que irão beneficiar, na medida justamente em que delas irão usufruir, tal como as gerações presentes pagam o proveito que tiram das infra-estruturas herdadas do passado (auto-estradas, pontes, redes de electricidade e de gás, etc.). O que é de lamentar mesmo é que outras infra-estruturas tivessem ficado por realizar mais cedo, como sucede justamente com o novo aeroporto de Lisboa (a sofrer dispendiosos remendos há vários anos) e com a nova rede ferroviária de bitola europeia, que a Espanha iniciou em 1992!
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Vital Moreira, Presidente da CEDIPRE - Universidade de Coimbra


Comentários

vg, | 17/06/09 00:22
Pode ser que o euro -deputado tenha razão,no sermão.Mas, eu vou antes pelo ditado popular:"quem te manda ,sapateiro,...?"


Antonio U.S.A., California/U.S.A. | 17/06/09 01:42
Os discursos que hoje se ouvem para aprovacao do TGV, nao serao muito diferentes dos que se devem ter ouvido, no tempo do "Fontismo", para a contrucao do caminho de ferro em Portugal, so que as necessidades e prioridades, na epoca, eram diferentes das de hoje. Continuo a nao compreender porque e que um pais, que anda cada vez mais devagar, necessita de um comboio de alta velocidade. Necessita Portugal ou a Espanha???


O depenado, | 17/06/09 02:15
TGV - Transporte Geralmente Vazio.
Interessante caso que levanta para ser pensado e discutido. Vindo de quem vem, ainda é mais interessante. O atraso atavico, que refere deve-se em primeiro lugar às nacionalizações. Não quer por acaso, fazer vista grossa e fingir que por exemplo, a maquinaria pesada que durante cerca de mais de 20 anos ficou a apodrecer, em vez de estar a trabalhar para fazer as auto-estradas e vias rápidas. Não quer esconder, que os empreendedorismo do português foi castigado, quando teve que pagar multas por ter tido a leviandade de usar energias alternativas. Não vai querer disfarçar, que até à bem pouco tempo, portugueses levaram nas unhas, por tentarem diversificar as fontes de energia. Afinal quem é retrogrado e ultrapassado é você. Porque havemos de confiar em pessoas que concordam com o despedicio de recursos em Expo 98, Euro 2004. Não criou riqueza, muito antes pelo contrario. Fazendo as contas, o TGV é mais um outro erro homérico a somar a tantos outros. Em vez de aumentarem os impostos e por isso serem os carrascos das nossas empresas privadas, mais valia enfiarem a viola no saco e irem pentearem macacos. Basta de parolices bacocas e foleiradas ridículas que nos custam o couro e o cabelo. Deixem a iniciativa privada correr riscos em vez de estarem a atrofiarem com a carga fiscal. Estamos fartos de retrogados, queremos liberdade para trabalhar. Basta de mandar os sindicatos chatear e estragar o material que tanto custou em investimento.


LOPES CARLOS, Belgica | 17/06/09 07:17
1. Portugal ainda não apresentou nenhuma candidatura aos fundos de coesão.
2. Por favor , expliquem aos Portugueses TGV/AA, bitolas, fases das obras, custos de investimento exploração, reduções de 900 milhões nos custos,etc.
3. Sobretudo, esclareçam quem assume eventuais prejuizos de exploração.


Migas, | 17/06/09 09:01
Tem toda a razão, infelizmente quem é contra o comboio de alta velocidade não conhece, nunca andou, não percebe como transformou um Pais como a França, não entende que estamos isolados da Europa e isso cada vez é pior para a Economia, para o Ambiente (as alternativas são o Avião e o Automovel)...
Este projecto peca por tardio, em vez de tanta autoestrada feita ja devia existir a linha Lisboa/Madrid e Porto/Vigo e assim estariamos ligados ao resto da Europa e o investimento estrangeiro em Portugal e a expanção das nossas empresas seria bem mais facilitada...
Mas não estamos sempre a adiar o futuro com medo dele...
Se fossem mais 12 centros comerciais a contruir ja a maioria achava bem, estavam todos contentes, se fossem mais estadios de futebol je batiam palmas, mas investir num transporte que ja é a realidade Europeia isso não...
Santa paciencia...


Carlos, Évora | 17/06/09 09:11
Concordo com o amigo "Depenado". O camarada Sócrates se ainda quiser ganhar as eleições, devia desvitalizar este senhor eurodeputado. Também devia proíbi-lo de abrir a boca pelo menos até às legislativas. Assina socialista de esquerda.


cdr, lisboa | 17/06/09 09:38
Os comentários confirmam as palavras do articulista.
Não aprendem mesmo! O Sr. que fala da expo nunca viu nem leu nada sobre os ganhos com o projecto. Também nunca passou pela ponte Vasco da Gama; só de imaginar o últimp fim-de-semana seo esta travessia... Ainda estavamos todos em Lisboa para atravessar aponte 25 de Abril. Coitados deles e de nós que temos de viver com eles!


Robin Hood, | 17/06/09 09:40
"Só uma forte dose de voluntarismo político consegue superar as dificuldades e as oposições." Sr Vital Moreira estará nesta frase a referir-se às chamadas luvas pagas a governantes para as obras serem entregues a certas e determinadas empresas? Ainda vamos ver quanto a Mota-Engil, do seu camarada, vai ganhar com o TGV...


Jorge Vieira, | 17/06/09 09:57
Eu concordo com o autor. Não existiu nenhum grande projecto nacional que não tivesse gerado excessiva e cansativa polémica.
Quem está de fora tem claramente a noção que não existe seriedade nos principais actores. Neste caso os partidos mudam de opinião com a maior da facilidades. Recordo-me de várias obras públicas que depois se provou que foram boas apostas.
Mas existem variadissimos exemplos. A começar pelos velhos do restelo das descobertas, Entrada na CEE etc ,etc .....
Continuamos a estar cheios de velhos do restelo mal intencionados e pouco sérios.


Rui, | 17/06/09 10:19
Todos os portugueses sabem que as grandes obras públicas cá em Portugal têm sempre grandes derrapagens e que essas derrapagens saem sempre do bolso dos cidadãos para irem cair no bolso dos POLÍTICOS CORRUPTOS deste país da treta !! A casa da música no Porto e a ponte D. Isabel em Coimbra são dois EXEMPLOS ABERRANTES DA PODRIDÃO QUE EXISTE NESTE PAÍS DA TRETA !! ALGUMA VEZ ALGUÉM FOI RESPONSABILIZADO E CONDENADO POR ESTAS DERRAPAGENS ??? NAAAAAÃOOOOOOO !!! VERGOOOOOOOONHA !!!!


Dos Santos, Cova da Moura | 17/06/09 10:30
Caro CDR, agradecemos ter-nos informado que: aprecia fins-de-semana no belissimo Allgarve, que está empregado, que é funcionário público e militante PS com job relevante. A Expo foi um projecto extraordinário, mudou aquela zona e foi um manifestação exemplar de cultura e inteligência que de facto revolucionou alguma coisa. É pena é não ter sido a inicitiva privada a pagar a factura, dado que foram os construtores civis a beneficiar com o cluster do Parque das Nações, porque andaram todos os portugueses 10 anos a pagar a divída ao exterior???


Joãozinho, Lisboa | 17/06/09 10:48
Eu quero uma casa com piscina, uma herdade no Alentejo (já agora a do Esporão) e um Austin Martin com 300 cv. Já agora tb quero a Paris Hilton que é tão loirinha e fofinha e tão apreciadora do man português. Mas quando vou ao banco aqueles senhores mostram elevado "conservadorismo atávico", pois não me emprestam o dinheiro. A minha mãezina, a minha tia, até o meu paizinho que está de "férias" em Caxias por desfalque no emprego, estão sempre a dizer, filho assenta essas ideias, não sejas sonhador e palerma. Definitivamente não percebo porque esta gente toda, "resiste a todo o processo de modernização tanto mental como material". São uns VELHOS DO RESTELO. Enfim são apenas "argumentos conservadores".


XAVI, PORTO | 17/06/09 10:49
Erro 1: onde diz "por último fins turisticos" devia dizer em 1ª lugar.
Erro 2: voluntarismo político houve e muito para abandonar a barragem de Foz Côa a troco de nada; grande progresso deram ao mundo os rabiscos das pedras, feitos sabe-se lá por quem, e a Portugal, lançando-se água abaixo largos milhões de contos (contos!) já gastos na obra! Entretanto, Foz Côa continua a mesma miséria. Camarada Soares deu o mote - "gravuras não sabem nadar"-, camarada Guterres obedece ao padrinho: abandone-se!
Erro 3: OTA. O seu amigo JAMAIS quanto gastou com a sua teimosia? Não fale na oposição:fale em políticos da treta, a começar por si.


NapoLeão, | 17/06/09 11:11
Espanha tem as principais cidades inter-ligadas pelo AVE (TGV) e quase 2000 kms de alta velocidade. Adiar o início da ligação Lisboa-Madrid será uma "saloiada" e a prova de que o Governo está cheio de indecisos. João Soares perdeu as eleições em Lisboa porque lhe faltou coragem para fazer o elevador/mirador para o Castelo ! E tinha acabado com o Castelo Ventoso...


Cristo, Queluz | 17/06/09 11:33
É próprio do HOMEM e da sua natureza, concordar com uma ideia ou discordar dela. No bom senso está o equilíbrio. Os estádios de futebol são um bom exemplo da má aplicação de recursos. O TGV não será uma má aplicação de recursos quando existem outras prioridades e outras alternativas ? O país é assim tão rico para se dar ao luxo de fazer comparações com a França e a Alemanha ? É como um pobre remediado cheio de dívidas a querer fazer figura de rico.


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