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Marta Rebelo

“A longo prazo todos estaremos mortos?”

09/02/09 00:01 | Marta Rebelo 



Hoje voltamos à velha questão: que vida há para lá do mercado, alma mater do capitalismo? E eis-nos de volta a Keynes.

Na ciência económica, já tudo se teorizou. Posso pecar pela taxatividade, mas em tempos de revisitação Keynesiana os seus neo-seguidores não inventam a pólvora salvadora, e reagem à crise numa "boémia científica" que Keynes reservava para a sua vida e interesses privados.

A ideia de que a auto-correcção dos ciclos é um goro e a falácia da auto-suficiência do mercado, foram a tábua salvadora da grande depressão dos anos 30. A intervenção pública na economia ante a retracção do consumo das famílias, pela injecção substitutiva de dinheiro no sistema, foi a génese da revolução Keynesiana. E o mundo suspirou de alívio ao provar inverosímil a profecia marxista.

Hoje voltamos à velha questão: que vida há para lá do mercado, ‘alma mater' do capitalismo? E eis-nos de volta a Keynes, que nos liberta a consciência do objectivo de pleno emprego, que nos valida a possibilidade de escassez da procura privada e justifica a procura pública - pecado original, até há meses. As preocupações do rival Milton Friedman com as contas públicas deficitárias perdem neste xadrez, e o PEC secundariza-se: paliativos imediatos para a economia real e reconstrução definitiva do intoxicado sistema financeiro.

Quanto aos primeiros, e entre nós, a actualização do Programa de Estabilidade e Crescimento e o orçamento suplementar, aprovados a semana passada, trouxeram a Iniciativa para o Investimento e o Emprego (IIE), a par de medidas fiscais integradas, essenciais para o nosso quotidiano económico. O défice, que contido gerou saldo orçamental agora dirigido à "cura da crise", vai ignorar o PEC. Com beneplácito da UE, que no seu Plano Europeu de Recuperação Económica abandona (temporariamente) preocupações monetaristas. No entanto, é a mesma UE que, pela voz do Comissário competente, dá conta que a Qimonda não pode ser salva por fundos comunitários, porque a sua funcionalidade não é socorrer empresas cujos proprietários não querem salvar. Todavia, é no espaço da mesma UE que a banca parece perdida sem um sobre-endividamento público que neo-monetarismo algum salvará no médio/longo prazo.

Contudo, é na Europa que a recessão dá sinais de ser tão ou mais grave do que nos EUA. Como provocar uma desintoxicação sistémica eficiente e reconstruir?

Na ciência económica, como dizia, já não há invenções. Stiglitz - desde sempre crítico das instituições de Bretton Woods - moraliza o keynesianismo, enquanto Krugman o exacerba, na busca de antídotos. É aquela a grande questão. Sustentada a economia real nas medidas de política económica de curto prazo, e mesmo noutras de espectro mais eficiente, a cura do sistema padece do mesmo impressionismo da revolução keynesiana original: o elenco da mudança é de tal forma extenso, que impressionados com o mundo em mutação, os neo-keynesianos não fazem paragem nesta viagem a um velho mundo novo para reflectir sobre o quanto ficará por mudar. Keynes ‘dixit': "não sei o que faz um homem mais conservador: não saber nada senão sobre o presente, ou nada senão sobre o passado". Num futuro breve, os Estados serão responsáveis por uma grande parte da actuação económica. Será possível retirar-se? Quando? Que privados, regulados por que formas públicas, vão no futuro gerir o jogo a que chamámos "mercado"?

Ultrapassada a grande depressão, Keynes passou a ser tido de modo vil, a par de Marx que tanto contraditou. Saído do armário, que será do neo-keynesianismo após esta grande crise do século XXI? Um mero ‘fast food' de digestão demasiado célere ou o trilho para um novo equilíbrio público/privado?

Os primados essenciais de Keynes não podem senão servir o imediato. Mas os neo-keynesianos, como o notável Stiglitz ou o Nobel Krugman, ou Lawrence Summers e Timothy Geithner, da Administração Obama, têm de enfrentar um mundo que Keynes nunca visitou. Onde a globalização globalizou os tóxicos financeiros que corroeram as estruturas daquilo que conhecemos por capitalismo. O mundo da finança deve dar entrada num rigoroso programa de desintoxicação e abandono da cartilha liberal: regras transparentes de circulação de capitais, crescimento económico sustentado num desenvolvimento global e partilha de prosperidade.

Em Bretton Woods ou noutro lugar qualquer.
____

Marta Rebelo, Jurista

 

 


Comentários

Joaquim Madeira, Lisboa | 20/02/09 00:25
Partilho da tua opinião e do teu ceptissismo.
Excelente trabalho Marta.


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