As recentes eleições em França deixaram-nos duas mensagens de enorme importância e, em certa medida, contraditórias: por um lado, o impressionante e surpreendente crescimento do eleitorado de extrema-direita e, por outro, o discurso de vitória de François Hollande sobre a imperiosa necessidade de combinar políticas de austeridade com medidas de estímulo ao crescimento económico.
Compreendo mal o voto na Presidente da Frente Nacional Marine Le Pen porque a sociedade moderna, contrariamente ao que ela diz, está cada vez mais marcada por quarto tendências-chave: a irreversibilidade da globalização, a crescente preocupação com o aumento da população idosa, a necessidade do aumento da mobilidade demográfica como forma de compensar a acentuada quebra da população ativa e, ainda, a exigência do aumento da qualificação média do fator trabalho para aumentar a competitividade externa da economia.
Todos falamos dos males da globalização e na necessidade de aumentar a regulação dos mercados financeiros, mas esquecemo-nos de que hoje mais de metade das operações nos mercados financeiros são feitas, em milionésimos de segundos, por potentes computadores, comandados por sofisticados algoritmos, simultaneamente em vários mercados do globo. Neste ambiente qualquer tentativa de regulação quando vai ser implementada... já perdeu atualidade!
A população com mais de 65 anos, por sua vez, representará na Europa dentro de 50 anos provavelmente cerca de 40 % da população total, sendo por isso necessário tomar medidas que incentivem a mobilidade externa, necessariamente qualificada e, por essa via, se baixe a idade média da população ativa e aumente a competitividade externa europeia. Por isso, embora se compreenda o apelativo discurso nacionalista da extrema-direita, pessoalmente considero-o "fora do nosso tempo" e contrário às tendências das sociedades do futuro.
Já no que se refere à vitória de François Hollande - que passou a mensagem da necessidade da conciliação das políticas de austeridade com as de crescimento - ela vem confirmar, por um lado, que quem governa em conjuntura de crise, em geral, perde. Por outro, de que a Europa está cansada de indecisões e indefinições quanto ao futuro da União e que, por isso, é preciso tomar medidas concretas que aumentem a competitividade europeia e fortaleçam a União. E, ainda, de que há um limite para os sacrifícios pedidos á população, ou seja, os cidadãos têm necessidade de sentir, com clareza, que o esforço e sacrifício que lhes é pedido é equilibrado e resulta na melhoria dum bem-estar futuro, não muito longínquo.
A vitória de François Hollande - e mesmo a pulverização das votações na Grécia e as próprias contradições que os resultados encerram - veio reforçar a necessidade de aprofundar o debate nos países europeus, relativamente às medidas de combate à crise e á importância do crescimento, como uma peça-chave para a sustentabilidade das atuais políticas de austeridade.
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Francisco Murteira Nabo, Economista
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