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Jorge Queiroz

A globalização e o desemprego

Todos os dias são anunciados novos despedimentos. A situação assume no plano “humano” e social contornos muito graves.

Começam a conhecer-se melhor os contornos da crise que abalou o mundo, e cujas perspectivas, infelizmente, vão piorando dia após dia.

A recente necessidade de reforço do apoio da generalidade dos governos aos bancos, passados pouco mais de dois meses do apoio inicial, é um claro sintoma da extensão e da profundidade desta crise.

O aumento exponencial do desemprego é uma consequência directa não só do encerramento de muitas dezenas de empresas, mas também da redução da produção de muitas outras. Todos os dias são anunciados novos despedimentos.

A situação assume no plano "humano" e social contornos muito graves.

Quando se prevê existirem mais de 50 milhões de desempregados no corrente ano, é legítimo que nos interroguemos sobre a actualidade das premissas em que assenta o funcionamento da economia mundial, definidas e quotidianamente alteradas, pelos diferentes governos.

A globalização é um bom exemplo do que pretendo afirmar, senão vejamos: quais as premissas e quais os objectivos da globalização? Quais os pressupostos que permitiram definir o respectivo calendário?

Em poucos anos a globalização conduziu a economia mundial a um beco, aparentemente sem saída, por muitas e variadas razões, com especial relevância para a grave crise de superprodução, com os conhecidos e dramáticos efeitos sobre o desemprego à escala planetária. E a compreensão do fenómeno é simples. Desde logo a globalização alterou de uma forma radical o funcionamento da generalidade dos mercados, sem que os diversos governos tivessem tomado as medidas cautelares que a especificidade de cada Economia o teria exigido. Mais uma vez a incompetência dos decisores políticos, apesar de óbvia, fica impune.

Acresce que o excesso da oferta global, consequência da superprodução mundial, está na origem da enorme pressão sobre a baixa generalizada dos preços, ao mesmo tempo que a crise do petróleo, fazia aumentar os custos de produção.

O resultado conjugado daqueles dois factores, constituiu uma autêntica mistura explosiva, que tem provocado a redução das margens operacionais das empresas, cujas contas de exploração entram aceleradamente no vermelho.

Assim o incumprimento, mais ou menos generalizado destas empresas, para com os bancos, começou a tornar-se inevitável, na sequência dos acumulados défices de exploração. Ao mesmo tempo que, face à referida acumulação de prejuízos de exploração, muitas empresas entraram em processo de falência, enquanto que outras reduziam a sua produção, para se ajustarem à procura e assim evitarem ter que fechar as portas. Em ambos os casos uma das consequências mais imediatas e visíveis, foi o aumento do desemprego, que nunca mais parou de crescer, e atinge hoje níveis verdadeiramente preocupantes.

Diria que não é preciso ser-se economista para perceber que não há sistema de segurança social que resista à actual escala vertiginosa do desemprego. Com o aumento do desemprego e o elevado endividamento da generalidade das famílias junto dos bancos, o crédito mal parado aumenta igualmente de uma forma significativa, enfraquecendo todo o sistema financeiro.

De tudo isto resultou que a generalidade dos bancos, quando emergiu a crise do ‘subprime' e os "Madoff", estavam já claramente enfraquecidos e fragilizados, pelo incumprimento, quer das empresas, quer das famílias.
E pior ainda, a generalidade dos bancos ficaram sem dinheiro para continuarem a alimentar o funcionamento da Economia.

Penso que este panorama, embora descrito de uma forma sumária e numa linguagem acessível, não sofre qualquer contestação.

Assim sendo não se compreende que ao nível da União Europeia não se tenha ainda procedido a uma revisão do actual Quadro Comunitário de Apoio (QCA), uma vez que a realidade macroeconómica que lhe serviu de referência, pura e simplesmente já não existe.

E o mesmo podemos dizer, a nível Nacional, relativamente ao QREN, Quadro de Referência Estratégica Nacional. Será mais um caso de incompetência dos decisores políticos?
Até quando os decisores políticos vão continuar a ser inimputáveis?
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Jorge Queiroz, Macroeconomista

 

 

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