A cena passa-se em 1875 e representa o ministro da Fazenda a esportular ao povo uma esmola de três tostões para o Santo António, o ministro das Obras Públicas, com o menino D. Luís I ao colo, tudo isto sob vigilância atenta do comandante da Guarda armado de chicote para evitar eventuais manifestações de indignados.
Foi na "Lanterna Mágica" que nasceu, pela mão de Rafael Bordalo Pinheiro, o Zé Povinho, personagem que elejo como figura portuguesa do biénio 2011 / 2012.
O Zé Povinho nasceu pois há 136 anos sob o signo bem português da resignação, encarando a vida como uma desgraça e o futuro como uma fatalidade chamada destino. E que via os atos do poder como manifestações de uma ordem natural, cósmica, de inspiração divina, que criou um mundo de nababos e homens de carga aos quais caberia, entre outras funções, a de pagar a conta com o suor do próprio rosto. E assim se manteve o Zé, conformado e paciente, esperando que o fado, a sina, a sorte olhassem um pouco por ele.
Porém, como é próprio da natureza humana, inclusive da natureza dos portugueses, o Zé Povinho evoluiu ainda em vida do seu criador.
Representações seguintes, no papel e em cerâmica, apresentam já a personificação do português, primeiro incrédulo e passivo, mais tarde bravio e revoltado, chegando mesmo à insolência. Foi ainda em vida de Rafael Bordalo Pinheiro que o Zé Povinho passou à ação. E foi ativo e atuante que passou à história e está presente na iconografia portuguesa exposta em museus, exibida em associações populares, utilizada em canecas, pratos, t-shirts e aventais, mais um sem número de utensílios.
A reconstituição na atualidade da cena de 1875 também acabará por representar o Zé Povinho no gesto com que Rafael Bordalo Pinheiro o fixou para a posteridade.
joaopaulo.guerra@economico.pt
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