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Bruno Proença

A farsa europeia

01/02/12 00:04 | Bruno Proença 



A última cimeira europeia foi mais uma farsa. Já não se fala em desilusão porque as expectativas são baixas. Mas os líderes europeus parecem falar de um mundo que não existe. Como se vivessem numa bolha de alienação.

A cimeira foi anunciada com uma agenda sobre a promoção do crescimento e do emprego. Porém, os resultados que todos comentam estão centrados nas questões orçamentais. Mais uma oportunidade perdida para debater aquilo que realmente interessa para resolver a crise económica. Aqui nota-se a fraqueza da Comissão Europeia. Por um lado, Durão Barroso não consegue marcar a agenda europeia - os holofotes estão todos apontados para Merkel e Sarkozy. Por outro lado, a proposta da Comissão para promover o crescimento é fraca e insuficiente porque não ataca as questões estruturais. Barroso quer que os Estados-membro realoquem fundos comunitários para outros projectos que promovam o emprego. Ou seja, quer contrariar uma recessão profunda sem gastar mais um euro. Não vai longe.

Para inverter a recessão, vai ser necessário muito mais. Uma política monetária mais expansionista do BCE e medidas orçamentais de promoção do crescimento por parte dos países que têm folga para isso, nomeadamente da Alemanha. Além de medidas mais estruturais que garantam a coordenação de política económica na União Europeia.

Alguém ouviu falar destes pontos durante a cimeira? Ficaram novamente presos às metas orçamentais e a sanções que provavelmente nunca vão ser aplicadas. Os objectivos de 3% para o défice, de 60% para a dívida e um excedente de 0,5% no saldo estrutural (saldo excluindo o efeito do ciclo económico nas contas públicas) não são novos. Estão previstos há muito. O problema é que poucos cumprem e, por isso, se chegou à situação actual. E isto não vai mudar com as sanções. Quanto à sua credibilidade, basta uma questão para perceber a fraqueza: alguém acredita que vão ser aplicadas caso os prevaricadores sejam a Alemanha ou a França?

A acrescentar a isto estão os recuos na introdução das metas orçamentais nas leis fundamentais dos países e, ainda pior, a incapacidade de fechar a solução para a Grécia. De adiamento em adiamento, os gregos passaram de uma dor de cabeça a uma enxaqueca profunda. A União Europeia não pode deixar cair a Grécia. Por isso, fazer cara de mau não resolve nada. É melhor arranjar uma solução consensual e que seja exequível.

Isto conseguiria contrariar a ideia de que os governantes europeus falam muito mas não conseguem fazer nada. Com tantas trapalhadas, não é de admirar que os investidores olhem de lado para a União Europeia. Nesta altura, acreditar na Europa não é racional, é um acto de fé.
____

Bruno Proença, Director Executivo
bruno.proenca@economico.pt




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