Colunistas

12 Jul 2010
João Marques de Almeida

A esquerda e a Europa

João Marques de Almeida

O crescimento do eurocepticismo, e nalguns casos mesmo do anti-europeísmo, entre a esquerda moderada europeia é muito preocupante. Esta tendência verifica-se, desde logo, na Alemanha e em França.

Apesar do SPD se manter firmemente no campo europeu, começam a aparecer vozes no partido muito críticas do projecto europeu. Os sindicatos e muito do eleitorado tradicional dos sociais-democratas alemães responsabilizam a União por muitos dos problemas económicos e sociais que a Alemanha enfrenta. Além disso, o SPD está sob pressão do partido radical de esquerda, o "De Linke", fortemente nacionalista e anti-europeu.

No partido socialista francês, a situação é mais grave. A maioria dos socialistas vê o mercado único, a política comercial comum e o Euro como ameaças ao "modelo social francês". Ou seja, a "Europa" é vista como uma espécie de "agente da globalização capitalista" que ataca o "socialismo francês". Ironicamente, isto acontece num momento em que o partido é liderado pela filha de Jacques Delors (o qual aliás confessa que não tem qualquer influência na política europeia dos socialistas). De certo modo, a situação não é nova, se nos recordarmos que a esquerda francesa, durante muito tempo, se opôs à integração europeia. Foi François Mitterrand que tornou o PS francês pró-europeu. Parece que os socialistas estão a regressar ao período pré-Mitterrand.

Não devemos confundir estas posições políticas com a legitimidade para criticar as políticas europeias. Todos os projectos políticos beneficiam com as críticas e com uma atitude céptica. De resto, a construção europeia já foi prejudicada pelos falsos, e fracos, consensos. De certo modo, a força de um programa político vê-se pelo modo como é capaz de lidar com as críticas.

Mas o que se passa com parte da esquerda europeia é bem mais profundo. Olham para a União Europeia como o problema e não como a solução. Como uma ameaça e não como uma defesa. O que em grande medida reflecte a enorme desconfiança que continuam a ter em relação ao capitalismo e ao mercado. Mas se a União se tornasse anti-capitalista e anti-mercado deixava de existir. O mercado único e o comércio livre continuam a ser pilares centrais da construção europeia.

Muitas das vozes da esquerda europeia defendem o "projecto europeu" em teoria, mas depois atacam o mercado único, as políticas de concorrência, o Euro, o Pacto de Estabilidade e Crescimento, e as políticas comerciais. Fazem-nos recordar o que Stuart Mill um dia disse do seu pai, James Mill, "o meu pai amava a humanidade em geral, mas odiava cada pessoa em particular". De que vale apregoar "amor" pela Europa e depois atacar as políticas que estão na base da construção europeia?
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João Marques de Almeida, Professor universitário

 

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