Por mérito do governo (e do talento político do ministro dos Negócios Estrangeiros), mas também como resultado das circunstâncias em que se encontra o país, a diplomacia económica nunca foi tão discutida como hoje.
Surge em títulos de jornais, é objecto de conferências, domina discursos de governantes e foi o tema central do recente seminário diplomático. Pela sua importância, vale a pena revisitar o tema.
A recuperação económica de Portugal passa em grande medida pelo estrangeiro. Será necessário aumentar as exportações e conquistar mais investimento externo. Neste sentido é óbvio que o país necessita não só de reforçar como de melhorar a dimensão económica da sua diplomacia. Há, no entanto, alguns cuidados a ter. Em primeiro lugar, a política externa não se esgota na diplomacia económica. A situação extremamente difícil do país poderá levar à tentação de ignorar outros interesses em detrimento dos económicos. Por mais difícil que seja o actual momento, não podemos permitir que uma situação conjuntural faça esquecer interesses estruturais. A diplomacia portuguesa não se pode tornar numa espécie de "realpolitik comercial", que ignoraria interesses nacionais vitais e valores políticos fundamentais.
Embora aceitando que o governo português não poderia ter tomado outra decisão no caso da privatização parcial da EDP, o facto do Estado chinês passar a ser o maior accionista da companhia eléctrica portuguesa (o que será muito provavelmente acompanhado pela entrada do mesmo Estado no capital da REN) causa-me algumas preocupações. Todos esperamos que a crise económica um dia passe, mas as acções e os interesses do Estado chinês não vão desaparecer (aliás, espera-se que o mercado português da energia se abra a outros concorrentes, para não estarmos limitados à EDP). E convém nunca esquecer que normalmente o âmbito temporal dos interesses políticos é bem superior ao dos interesses económicos.
Em segundo lugar, o reforço da diplomacia económica não substitui as reformas internas, absolutamente necessárias para aumentar as exportações e o investimento estrangeiro. Os diplomatas portugueses podem conduzir uma excelente diplomacia económica, mas se o governo não prosseguir uma agenda reformista interna, as empresas portuguesas não produzirão nem exportarão muito mais, e os investidores estrangeiros não terão a confiança suficiente para investirem na economia portuguesa. Ou seja, a diplomacia económica começa cá dentro.
Por fim, a Europa tem que estar no centro da diplomacia económica. O crescimento económico na Europa é crucial para o crescimento da economia nacional. No início da semana passada, Berlim e Paris colocaram, finalmente, o crescimento económico no centro da agenda europeia. Roma partilha essa agenda e agora, regressada ao concerto europeu desde que Monti se tornou PM, goza de alguma influência junto do governo alemão. Gostaria muito de ver o governo português a discutir com o governo italiano (e com o governo espanhol) uma agenda de crescimento económico para a Europa. Seria um bom exemplo de diplomacia económica.
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João Marques de Almeida, Professor universitário
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