Nos últimos tempos quase só se falou de dívida pública, ou soberana, reflectindo aquela dívida que o Estado assumiu interna e externamente e que ninguém sabe como vamos pagar.
Mas há uma outra, porventura ainda mais importante, que continua ignorada. Refiro-me à dívida externa, de âmbito nacional, em que estão envolvidos o Estado, as empresas e as famílias. Apesar de alguma sobreposição, é sobre esta dívida que me proponho reflectir.
Os números são de 2010, mas não creio que tenham tido grandes alterações. A Zona Euro no seu conjunto está relativamente equilibrada, mas os respectivos países dividem-se em dois grupos antagónicos: os que geram excedentes - casos da Alemanha, da Bélgica, da Holanda e do Luxemburgo; e os que geram défices - casos da Espanha, da Itália, da França e de Portugal. Admitindo que haveria vontade política, como corrigir este desequilíbrio?
Uma hipótese seria aumentar a procura interna dos países excedentários. Como as importações de um país são exportações dos outros, esta medida levaria a um aumento da procura externa nos países deficitários e, por reflexo, a uma melhoria da produção global. Por exemplo: metade dos excedentes da Alemanha dava para pagar a quase totalidade das dívidas de Portugal, da Irlanda e da Grécia. Só que a vontade política não existe, ponto final.
A outra hipótese é aumentar a competitividade dos países deficitários. O que significa pelo menos uma de duas coisas: ou mais investimento e melhor organização do lado das empresas ou salários mais baixos do lado dos trabalhadores. Mas nada disto é fácil. Tomemos como exemplo o caso português. As empresas estão hoje descapitalizadas e não há ninguém que as financie; e os salários nominais, independentemente da injustiça, não podem sequer ser objecto de redução. Como sair disto?
A minha opinião é que o Governo deveria pegar neste cenário caótico e tentar convencer os países excedentários a mudarem de política, numa perspectiva da melhoria do conjunto. Mas confesso que nem eu próprio acredito nisso. Ou seja, o nosso problema vai ter de ser resolvido internamente. Como? Um dia destes, a ‘troika' chama o Governo e diz-lhe que a solução está em sair do euro, regressar ao escudo e proceder a uma brutal desvalorização. Os salários caem no mínimo para metade.
É o fim da linha.
DEPENDÊNCIA EXTERNA
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Dos valores anuais... (Balança corrente, % PIB) |
Aos valores acumulados (Saldo exterior*, % PIB) |
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Fonte: Eurostat.
*Medido através da PII - Posição de Investimento Internacional..
A balança corrente do conjunto da Zona Euro está praticamente equilibrada, mas os desequilíbrios entre países
são colossais. Por exemplo: o nosso défice é idêntico ao da Grécia, ambos da ordem dos 10% do PIB, o que configura uma situação explosiva. Já a nossa dívida acumulada excede o valor do PIB e é, em termos relativos, o mais alto de toda a Zona Euro. A imagem que prevalece é a de que o país não tem solução...
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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt
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