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Daniel Amaral

A dança do TGV

26/06/09 00:01 | Daniel Amaral 



A análise custo-benefício de um grande projecto pressupõe o domínio de vários conceitos: o investimento implícito, as receitas esperadas, o horizonte temporal, a taxa de desconto, etc.

Desconheço as entidades que o analisaram o TGV - Lisboa-Porto, Porto-Vigo e Lisboa-Madrid. Mas não tenho razões para duvidar da competência e da honorabilidade dos seus autores. Vou admitir que a análise foi bem feita.

Estudos recentes apontam para que o TGV custe € 7,5 mil milhões, dos quais apenas 36% serão suportados pelo Estado. E o impacto económico-financeiro, num horizonte de 30 anos, será de €126 mil milhões de PIB, de €64 mil milhões de receita fiscal e de 56 mil novos empregos permanentes.

A que se juntam aqueles benefícios mais dificilmente mensuráveis ligados ao ambiente, à mobilidade e ao desenvolvimento regional. É pouco? É o que é.

Ao longo de uma década, o TGV passou por todos os crivos: foi estudado ao milímetro, foi aprovado pelo PSD/CDS, esteve em duas Cimeiras com a Espanha, foi confirmado pelo PS, é prioritário em Bruxelas e pode ser financiado pelo BEI. Mais: foi "vendido" ao país como exemplo modelo de uma Parceria Público-Privada em regime de concessão. Quando agora nos dizem que é preciso parar para pensar - querem dizer o quê?

Um projecto como o TGV é composto por duas fases: a fase de financiamento e de construção; e a fase de exploração e de reembolso. Os custos são suportados pelos utilizadores. A esta luz, o modelo é análogo ao das auto-estradas com portagem. Gritar aos quatro ventos que há uma sobrecarga para as gerações futuras é o mesmo que ir tomar banho ao mar e concluir que a água é salgada. Como é que queriam que fosse?

Dito isto, é preciso acrescentar que, sendo o dinheiro um bem escasso, escolher um investimento é preterir investimentos alternativos. E não me custa admitir que possa haver outros melhores. Pois bem, onde estão as alternativas ao TGV? Quem as estudou? Não sei de qualquer resposta a estas perguntas. Mas sei de muita gente a reclamar estudos. É uma obsessão doentia: estudos e mais estudos, sempre os estudos...

A dança do TGV é a imagem de Portugal ao espelho. Perdemos tanto tempo a fazer estudos que ficamos sem tempo para os materializar.

d.amaral@netcabo.pt


Comentários

Leandro Coutinho, Porto | 26/06/09 03:04
O TGV é como o assunto do provedor de Justiça.. Perdem tempo e não se entendem porque não é a dama deles que fica raínha do baile.. O Psd esbraveja agora contra o TGV e já foi defensor fervoroso do mesmo.. Um dia que ganhasse as eleições e fosse governo, fazia golpe de rins e construía-o rapidamente.. Estamos habituados a estas tretas desta malta toda.. Se querem tanto poupar dinheiro ao Orçamento de Estado, então municipalize-se a Carris e o Metro de Lisboa.. Ponham os municipes a pagar os custos de exploração e não os cidadãos do país inteiro..


FT, | 26/06/09 08:22
Obrigado Professor Daniel Amaral. Haja alguém que explique como funcionam estas coisas. Ao contrário do super reputado Economista que há cerca de dois meses afirmou perante as câmaras de TV: "Numa Estrada há Custos e Benefícios. Os Custos é o que se paga ao Empreiteiro para executar a Obra. O Benefício é o que os carros passam para lá passar".


Realista, Porto | 26/06/09 09:07
Concordo com o artigo e com o comentário de <Leandro Coutinho>. O projecto do TGV não é um projecto de Sócrates. É um projecto nacional, que já está em coma da mesa ha muitos anos e até ja foi aprovado por todos os partidos.


aTrM, | 26/06/09 10:15
Mais palavras para quê?!...Falam e comentam pessoas sensatas que querem ver o País a andar e não a feirar!...


Miguel Antines, | 26/06/09 10:42
E onde se irão centrar os benefícios? Nos centros mais desenvolvidos de Portugal. O TGV vai criar emprego...tudo bem...mas vai criar empresas? Tendo em conta o nível de endividamento do país será o momento ideal? Estudo e mais estudos mas sabem o valor de uma opção? Neste caso a opção de adiar o investimento para uma melhor altura.
Portugal não tem criação de riqueza e quando se quer fazer algo é o Estado que tem de entrar com mega-projectos. É preciso iniciativa privada e para isso é preciso investir mas nao acho que seja em TGV's.
Acho que é altura de se esperar que não seja sempre o Estado a chegar-se à frente....se calhar serão anos de influência de uma ditadura que assim habituou os portugueses.


jtx, LX | 26/06/09 13:24
E o impacto económico-financeiro, num horizonte de 30 anos, será de €126 mil milhões de PIB, de €64 mil milhões de receita fiscal e de 56 mil novos empregos permanentes.


aquilo que se chama atirar areia pros olhos


NapoLeão, | 26/06/09 14:00
A mesma equipa laranja (Durão Barroso+Manuela Leite) que defendeu o TGV/AVE , agora dá o dito por não dito ! Ai se os tais 27 homens + 1 Mulher "economistas credíveis" sabem disto ! O que será a credibilidade para esta "elite" ?


Carlos Santos, Lisboa | 26/06/09 14:41
Os portos portugueses, por não estarem ligados directamente à nova rede ferroviária, com a mesma bitola, electrificação e sinalização, não poderão transportar directamente os contentores para à U.E. e o nosso país ficará mais isolado e menos competitivo.

http://static.publico.clix.pt/carga_transportes/noticias.asp?id=1374739


alberto, lisboa | 26/06/09 16:04
Concordo com o artigo. O PS cede em toda a linha, não se pode concordar com o TGV lisboa-porto, é uma irracionalidade, acabe-se a linha do norte e logo se verá, mas a ligação internacional não tem nada que ser adiada. O PM está na defensiva, este caso é um pouco como a decisão aberrante de impedir a PT de fazer um negócio que faz todo o sentido, que está na linha do plano estratégico, que só deve depender do CA onde o estado tem um membro. E para quê? Para o PM não ficar políticamente exposto para as próximas eleições! Fim da crise? recuperação? Não com decisores políticos destes, ao virar da esquina virá mais uma decisão e depois outra que prejudicam o país. Travar o TGV internacional é um dislate político- dá-me vontade de não votar nas legislativas- e sobretudo de natureza económica. Empresas cotadas? O que é isso? Se querem vender as empresas, o que acho muito mal, não deveria haver lugar a instrumentos deste tipo. Como é que a UE ainda não acabou com eles?


Cristo, Queluz | 26/06/09 17:13
Os que defendem o TGV a tudo o custo, deveriam pelo menos, pensar no GRANDE TRAMBOLHÃO que aconteceu à economia mundial e Portugal não ficou à margem como a China. Não continuem a bater na mesma tecla, das posições anteriores, de quem agora tem outra ideia sobre este projecto. O Mário Soares (socialista) disse uma vez: "só os burros é que não mudam". Os estádios de futebol não serviram de exemplo ?


joqinha, | 26/06/09 17:35
"56 mil novos empregos permanentes". Tá tudo doido ou quê? Como? Em meia dúzia de estações e duas dúzias de comboios? Isto faz lembrar as análises dos "experts" financeiros antes da bolha tecnológica rebentar. Qualquer powerpoint valia logo dezenas de mihões. E era só paperware....


joquinha, | 26/06/09 17:41
Ainda não peceberam o porquê da importancia de quem assina o contrato do TGV? É que quem assinar é que leva o cabaz do Natal, que, como é tradição, os empreiteiros dão aos clientes pelo Natal. Se for este governo, o PSD fica sem o bacalhau. Assim convém adiar para ver se cai alguma posta...
O resto são balelas! O TGV vai avançar Lisboa-Badajoz ( porque é que falam sempre em Lisboa-Madrid?), e depois logo se vê se o resto avança. Cá para mim o Alfa Pendular se acabassem o projecto de melhoria de linhas e alguns troços novos, ficava ao nivel do tgv, mas assim havia menos bacalhau....


G 28, | 27/06/09 02:45
Os estudos continuam, a próxima visita de estudo está programada para dar uma volta no Maglev de Xangai que está em funcionamento desde 1 de Janeiro de 2004. Esta máquina é um comboio de levitação magnética, bate os 500 Km/h.


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