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Cinema

A Dama que escondia não ser de Ferro

Filipe Garcia  
12/02/12 09:30

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Chorou na despedida de Downing Street e manteve negociações secretas com o IRA. A vida da primeira mulher a chegar ao poder em Inglaterra.

Sobreviveu a motins, a atentados à bomba, greves históricas, a uma guerra bélica e a outra fria e liderou um país que chegou a ter três milhões de desempregados, mas mesmo assim os ingleses e o mundo tiveram de esperar onze anos e meio para dissipar dúvidas. A 28 de Novembro de 1990, Margaret Thatcher mostrou que, afinal, nem era toda feita em ferro e chorou. Acabara de perder o direito a viver no número 10 de Downing Street e se em público uma mordidela no lábio superior evitara o pior, no banco de trás do carro oficial nem a Dama de Ferro conseguiu impedir que a multidão e os jornalistas, testemunhas da sua despedida, a vissem com os olhos tão vermelhos como o casaco que vestia. "Amava duas coisas: o marido Denis e o número 10", recordaria, anos mais tarde, Norman Tebbit, seu antigo colega de governo, ao "Daily Mail".

Nascida a 13 de Outubro de 1925 em Grantham, Lincolnshire, Margaret Roberts cresceu no andar por cima de uma das mercearias do seu pai, Alfred, acólito metodista que chegaria a presidente de câmara em 1945. Liberal mas eleito como independente, só com a chegada dos Trabalhistas ao poder na cidade, em 1950, foi destronado, mas o vício da intervenção política já tinha sido semeado na família. Anos mais tarde, já bem lançada na sua caminhada política, a filha Margaret era entrevistada pela BBC. "Não acredito que seja no meu período de vida que veremos uma mulher como primeiro-ministro", dizia a então secretária de Estado da Educação, já conhecida como a "ladra de leite".

Ter cortado o leite gratuito para alunos com mais de sete anos - alegando que era preciso poupar - pode ter-lhe valido a primeira alcunha pouco simpática, mas não travou a caminhada política e, a 4 de Maio de 1979, conseguia contrariar a sua previsão ao tornar-se primeira-ministra de Inglaterra. Meses depois, em Julho, seria a vez de outra mulher chegar ao poder na Europa- Maria de Lurdes Pintassilgo, que liderou o V governo constitucional de Portugal entre 1979 e 1980.

"Onde há discórdia, que possa haver harmonia. Onde há erro, que possa haver verdade. Onde há dúvida que haja fé. Onde há desespero, que exista esperança": à chegada a Downing Street citou São Francisco de Assis. E foram as primeiras frases célebres de Thatcher como sucessora de James Callaghan, mas que hoje dificilmente entrariam para qualquer um dos seus ‘tops'. No poder, a dama que ficou conhecida por não ceder coleccionou frases que ecoaram pelo mundo. "Os socialistas gritam ‘Poder ao Povo' e erguem o punho cerrado enquanto o dizem. Todos nós sabemos que o que realmente querem dizer é ‘Poder sobre as pessoas, Poder ao Estado'", "Derrota? Não sei o significado da palavra", "Normalmente formo a minha opinião sobre um homem em dez segundos e raramente me engano", ou a resposta, num debate acalorado, com o conservador John Whittingdale, ao dizer que, com ele "o problema era a espinha não chegar ao cérebro", entraram para a história da política britânica. Segundo Thatcher, "um mundo sem nuclear seria menos estável e mais perigoso para todos nós" e "para ganhar uma guerra podia ser necessário travar a batalha várias vezes", lemas que ajudaram a criar a imagem de "Dama de Ferro", a alcunha que ainda hoje, com 86 anos, a segue.

No poder, adoptou uma vigorosa política de privatizações - só em 1983 o Estado inglês facturou perto de 30 mil milhões de euros -, adoptou impostos que levaram a violentos confrontos, geriu um país em recessão e com motins - em 1981, Londres, Birmingham, Leeds e Liverpool. No entanto, a regra de gestão política fora apresentada logo nos primeiros anos quando, num congresso dos conservadores ingleses, disse a sua mais célebre frase: "Mudem vocês se quiserem, esta senhora não foi feita para dobrar".

Privatizações e a subida de impostos podem ter custado alguma da popularidade a Thatcher. Mas foi contra os sindicatos e contra o IRA que travou as batalhas mais duras. Em 1984, o sindicato nacional de mineiros insurgiu-se contra o corte de 20 mil postos de trabalho e, durante um ano, manteve-se em greve. Mesmo sem vítimas mortais, a batalha foi dura. A economia britânica perdeu 1,5 mil milhões de libras e a moeda cedeu na corrida face ao dólar, mas Thatcher ganhou e o movimento sindical britânico nunca mais recuperou a força que lhe permitira manter uma luta aberta com o governo durante um ano. Bem pior foi a batalha com o IRA. Em 1981, um grupo de presos do movimento terrorista irlandês, liderado por Bobby Sands, entrou em greve de fome, reclamando o estatuto de presos políticos. Publicamente, Thatcher manteve a postura. "Crime é crime, não é política", disse então, mantendo a mesma atitude até à morte de Sands e de nove outros grevistas. Nessa altura, foram instituídos alguns direitos especiais para prisioneiros "paramilitares", mas a verdade só recentemente foi conhecida. Em Inglaterra, a documentação secreta só é libertada 30 anos depois e hoje é sabido que, nos bastidores, Thatcher esteve bem menos intransigente do que aparentava. Segundo a documentação secreta, de Downing Street saíram várias propostas de reconciliação e até ofertas de dinheiro para que a greve de fome fosse suspensa. Mas, com o IRA, o embate foi demasiado violento para que alguém cantasse vitória e mesmo a vida da primeira-ministra esteve em risco. A 12 de Outubro de 1984, enquanto decorria um congresso do partido conservador, o IRA colocou uma bomba no Brighton Hotel, onde Thatcher se encontrava. A bomba explodiu, fez cinco vítimas, mas no quarto da primeira-ministra apenas a casa-de-banho ficou destruída e o momento acabou por ser aproveitado para contabilizar mais uma vitória. O IRA assumiu o ataque e lembrou: "Hoje tivemos azar e vocês sorte. Mas lembrem-se: nós só teremos de ter sorte uma vez. Vocês terão de ter sorte sempre." Thatcher não se atemorizou e limitou-se a alterar o discurso. Em vez de atacar os Trabalhistas, disparou para o IRA que acabara de tentar "debilitar o governo de Sua Majestade." "O facto de aqui estarmos todos, só quer dizer que falharam", disse.

Hoje viúva e mãe de dois gémeos, Thatcher nunca escondeu as saudades de Downing Street. Até ao final da vida, Dennis, o marido, teve direito a pequeno almoço feito pela mulher que durante anos foi a mais poderosa do mundo. O filho, Mark, levou vida de aventureiro. Causou um incidente diplomático ao perder-se no deserto durante dias enquanto participava no Paris-Dakar, fez-se milionário e foi condenado a 18 meses de pena suspensa por conspirar num golpe de Estado na Guiné Equatorial. A filha, Carol, é jornalista e, em 2006, fez com que a mãe regressasse à TV ao vencer um ‘reality show'. "Foi cumprimentada calorosamente, com uma grande salva de palmas e pessoas a tirarem fotografias com os telemóveis. Disse-lhe: mãe, és um ícone", recordou. A resposta foi férrea. "Carol, acho que já garanti o meu lugar na história". Palavra da Dama que sempre escondeu não ser de Ferro.

Mais Margaret e menos Thatcher

Pode parecer paradoxal, uma vez que se trata da primeira mulher que chegou a líder do governo britânico e também da figura que mais tempo manteve o poder, mas o filme dedicado àquela a quem o carácter inflexível e os soviéticos chamaram Dama de Ferro é mais sobre Margaret e menos acerca de Thatcher. Centra-se na mulher, na luta pela afirmação num universo masculino, no que isso significava nos anos 70, nos sacrifícios e no amor por Denis, o marido, deixando questões políticas para segundo plano. Não ignora os principais momentos - a chegada ao topo do Partido Conservador em 1975, a vitória nas eleições de 1979, o IRA com a greve de fome dos presos e os atentados (inclusive aquele a que sobreviveu), a greve dos mineiros, o conflito com a ditadura argentina pelas Malvinas, a proximidade de Ronald Reagan, o papel na desagregação da União Soviética, os triunfos até ficar sem o apoio de alguns dos principais apoiantes -, mas confere um olhar mais humano e menos politizado sobre a carismática personalidade. Nada de estranho - a película inspira-se na biografia escrita por Carol, a filha da antiga primeira-ministra. Meryl Streep, nomeada pela 17ª vez para os Óscares, garante um desempenho hipnótico. Thatcher foi odiada pelas políticas, mas
é difícil ficar indiferente à construção de personagem da actriz norte-americana. E, aos 86 anos, a antiga primeira-ministra tem um adversário poderoso: a doença de Alzheimer.

A Dama de Ferro - PHYLLIDA LLOYD

Estreia: LISBOA ZON Lusomundo Amoreiras (13h50, 16h30, 19h10, 21h50, 00h20); Medeia MonumentaL (13h20, 15h30, 17h35, 19h40, 21h45, 00h15); ZON Lusomundo CascaiShopping (13h00, 15h50, 18h30, 21h00, 23h20); UCI Cinemas - El Corte Inglés (14h10, 16h50, 19h10, 21h45, 00h20) PORTO UCI Arrábida (14h05, 16h20, 18h40, 21h30, 00h05 ZON Lusomundo NorteShopping (16h00, 18h50, 21h30, 24h00); ZON Lusomundo Dolce Vita Porto (12h50, 15h30, 18h10, 21h10, 23h50).




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