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António Costa

A conspiração

22/09/09 00:04 | António Costa 



O Presidente da República afirmou aos jornalistas, a propósito de eventuais escutas em Belém, que um dos seus traços não é a ingenuidade.

Ora, depois da decisão de afastar um assessor e da confirmação oficiosa da conspiração a partir de Belém para derrotar o PS nas eleições legislativas, vale a pena dizer ao Presidente que os portugueses também não são ingénuos.

O que se está a passar é mau demais para ser verdade, é a asfixia democrática que ninguém imaginava possível, é a fragilização de um órgão de soberania, o Presidente da República, com a conivência do próprio, por acto ou omissão, mas seguramente por actos e omissões mal explicados, contraditórios, suspeitos. Por isso, a demissão de um assessor, o seu afastamento, a sua responsabilização pública só explica parte da história, a de que houve uma tentativa de golpe palaciano para prejudicar o PS e José Sócrates em plena campanha eleitoral. Mas continuam a faltar outras explicações de Cavaco.

O silêncio ambíguo de Cavaco Silva quando foi publicada a primeira notícia, no "Público" a 18 de Agosto, sobre as suspeitas de que o Governo andava a espiar a sua actividade, através de escutas colocadas no Palácio de Belém, causaram perplexidade. Afinal, não era um disparate de Verão? Quando o DN noticiou, na passada sexta-feira, que o assessor Fernando Lima tinha encomendado uma notícia sobre estas escutas, através do mesmo jornal, a resposta ambígua de Cavaco Silva serviu apenas para confirmar que, afinal, era mesmo verdade, o Presidente suspeitava da existência de escutas. Até porque, nessa resposta, afirmou-se atento "às questões da segurança" e disse que não era ingénuo. A declaração do director do "Público", José Manuel Fernandes, de que o SIS poderia estar envolvido na notícia do DN, porque citava um ‘email' trocado entre o referido assessor e um jornalista do "Público", só serviram para adensar o trama.

O primeiro a desmentir-se foi o director do "Público", porque, afinal, não teria existido uma violação do sistema informático do jornal. O segundo foi o próprio Presidente ao demitir o assessor Fernando Lima, a forma encontrada para dizer ao país que a conspiração não tinha tido a sua participação ou conhecimento e limitar, assim, os danos deste caso, já óbvios.

A decisão de dimitir Fernando Lima - que não é um caso particular da Presidência, como afirmou Manuela Ferreira Leite para justificar o seu silêncio sobre o caso - confirma a existência de uma conspiração a partir de Belém contra o primeiro-ministro, afecta a imagem do "Público" neste processo pela forma como o seu director assumiu ‘as dores' da Presidência, arrasta o PSD neste pântano institucional e partidário e, mais grave, põe em causa a sua própria autoridade e independência políticas.

A decisão de Cavaco Silva serve, apesar de tudo, para responder à pergunta colocada ontem neste espaço: os portuguesees podem confiar nas ‘secretas' portuguesas e o regime democrático não está em causa, porque, afinal, não há escutas promovidas pelo SIS ou outro órgão de informação a mando do Governo. Se existissem, o Presidente já teria, com toda a certeza, actuado...
____

António Costa, Director

antonio.costa@economico.pt




Comentários (21)

asfixia, | 24/09/09 00:22
o Pantanal tem toda a razão. É uma vergonha a cobertura tendenciosa que a SIC faz desta campanha...hoje julgava que estava em pleno tempo de antena do PS, quando davam as notícias...


Paulo AF, Lisboa | 23/09/09 16:17
O Sr Presidente continua a enterrar a cabeça na areia, coisa que já nos habituou à muito com infidáveis tabus e silêncios enigmáticos.
No final ou vêm revelações do óbvio ou ninharias como a questão dos Açores, mas desta vez parece que foi longe demais, ingénuo ou não, toda esta trapalhada é responsabilidade da presidência, é mais uma facada na confiança nas insituições e uma teimosia saloia de apego ao poder que já não tem a confiança dos portugueses. Demita-se.


Patricia, | 23/09/09 10:52
a verdade do psd é aquela que nos sabemos futil e mentirosa ou esquecemos como o financiamento partidário do psd funciona ...perguntem ao isaltino


Gonçalo, Lx | 22/09/09 19:16
Rui Santos e AJ,

as diferenças estão nos pormenores:

No caso Preto (repito, está formalmente ACUSADO se bem que, claro, aibnda não culpado) o problema coloca-se devido a uma questão ética. Pode MFL arrogar-se a superioridade moral quando se inclui nas listas alguem nestes termos? Não estou - ninguém o fez, julgo - a acusar o Manuel Preto de nada. Aliás, minto... quem acusa é o Ministério Público. Depois, ao ler-se os pormenores da coisa (como é o caso do braço engessado - do qual há provas: relatório da judiciária face à impossibilidade da peritagem da assinatura admoestação da OMédicos sobre a actuação do cunhado) não posso evitar uma sensação de nojice. Enfim. Mas culpado formalmente, não é.

Quanto à questão da compra dos votos... outro problema. A "fundamentação" vem exactamente, não de anónimos, não de vozes gravadas sabe Deus onde, nem de uma denúncia qualquer. Vem de militantes devidamente identificados do partido. As ilações tomá-las-emos todos nós. Aparentemente, não é crime (!) mas revela a sujeira.

Por fim, quanto ao Cavaco... Poderiamos todos ficar por aqui a roer a questão da presunção de inocência se... Cavaco não tivesse optado por demitir o acessor. Desta forma, convenhamos, admite-se tacitamente a intervenção. Tal como o Público - ao acusar o mensageiro mas não a veracidade do email - admite os contornos da "jogada". Falta só saber (alguma vez o saberemos?) se Cavaco Silva estava ao corrente (tudo aponta para que sim) ou não (também é possível que o seu braço direito de há 25 anos cozinhasse isto às escondidas). Portanto, lá está. Mesmo dando o benefício da dúvida, sabemos agora que houve e que há conspirações entre agentes do poder e orgãos de comunicação social para denegrir o Governo (e outros no passado, não duvido).

Mais, pequeno cherry on top, outra fonte da Casa Civil disse que a "secreta militar" tinha sondado Belém em busca de escutas... e que não encontrou nada. Azar.

Do BPN nem falar. Não há ainda acusados. Possivelmente, com um caso tão complexo, nunca haverá culpados. Ergo - Dias Loureiro e Oliveira e Costa são inocentes como pombinhas. Depois disto, eu não lhes confiava o dinheiro, mesmo assim. Aliás, o outro que teve a desfaçatez de dizer frente a mua audiencia parlamentar que pensava que era ao Bilhete de Identidade que Oliveira e Costa se referia quando dizia BI (Banco Insular), acaba por consolidar a minha ideia - sim, ainda não são formalmente culpados, mais uma vez - de que era tudo gente boa e honesta.

Daqui passamos para os casos que "envolvem" o Sócrates (e muito bem exploradinhos pela comunicação social e pela oposição). Em nenhum deles há acusação, em nenhum deles há elementos concretos, em nenhum deles há quem dê a cara. Há diz-que-disse, há um manhoso qualquer a tentar sacar dinheiro aos bifes (os meninos da Carlyle são tudo menos parvos, já agora), há muita vontadinha de fazer render o peixe de um caso que começou - Policia Judiciária dixit com uma carga anónima redigida por um militante do PP, um do PSD, um inspector e um jornalista.

De resto, que querem que vos diga?


anibal barca, | 22/09/09 17:42
Posto isto aguardo duas demissões: a do PR e a do director do Público. Dariam alguma dignidade ao país. Mais do que o eqilíbrio orçamental. Foi tudo muito mau demais.


zeca, Setúbal | 22/09/09 16:52
Ao TR,
É muito feio querer aproveitar uma notícia da SIC, para logo atacar o PS e o Sócrates, sobre a suspensão da promoção do Juíz Rui Teixeira, que teria sido por causa dos juízes nomeados pelo Partido Socialista...

Afinal a notícia pariu um rato, dado que notícia de hoje do Económico, a suspensão da promoção foi de iniciativa do Juíz Laborinho Lúcio nomeado pelo Presidente da República, ainda antes das férias judiciais, com a alegação de ver como ficava o recurso apresentado pelo estado, devido ao pedido de indemnização que teria de ser pago ao Dr.Paulo Pedroso, por o ter mandado prender sem ter provas....

É mais do que justificado essa decisão....para quem trabalha mal não se pode avaliar com um Muito Bom, quando o estado pode ser obrigado a indemnizá-lo...


Alexandra Quaresma, | 22/09/09 16:44
Por estas e por outras...pode.se ver o impacto que estas notícias têm na campanha em www.trocasdeopiniao.eu

Alexandra


viriato, | 22/09/09 16:42
O sr silva (com letra pequena) de Boliqueime, não é ingénuo como bastas vezes quer fazer crer.
Ele é apenas um pobre pacóvio, pouco inteligente, que tem tido (já teve mais) da parte de alguma imprensa, uma campanha idiota, para nos convencer que o sr é honesto, rigoroso nas contas e muito, muito competente.
Infelizmente a práctica e os actos não têm confirmado isso.
O homem é tão inepto, que nem a fazer baixa intriga se safa.
Atenção que sou homem de direita.


Moinas, lisboa | 22/09/09 14:41
Está na altura de acabar com mito do superhomem acima de qualquer suspeita chamado Cavaco Silva em que durante as suas governações se aliou aos piores oportunistas que desbarataram os dinheiros de Bruxelas contribuindo para o pantano económico que vivemos hoje. O que aconteceu é gravíssimo e quem devia ser demitido não era o assessor.


TR, | 22/09/09 12:56
Sobre a justiça que falem os que lá andam e sabem da poda.
Perguntem aos magistrados que denunciaram as pressões.
Ao presidente do sindicato do Ministério Público.
Ao juiz Rui Teixeira da Casa Pia que vai esperar pela resolução da indmenização ao Pedroso para ver se tem muito bom.
Devem ser todos da oposição, maledicentes, gente de cabalas.
Tudo "fog of war".
Yésssssssss


Aj, | 22/09/09 12:43
Pois, caro Gonçalo,pois depende, e veja a sua:
1- Preto acusado, com julgamento marcado: aqui, o princípio da inocência até ao trânsito em julgado da sentença, num Estado de direito, para si apenas vale para Sócrates?
2- Preto acusado por militantes "fundadamente": portanto para si, neste caso com gravação e tudo como no DVD que você diz ter água no bico...), bastam as imputações para haver fundamento? E no caso de Sócrates, ouvindo-se no DVD o que se ouviu, já não há fundamento? Tem dias?
3- Cavaco demite assesssor: save você se foi por não haver escutas ou vigilância ou se foi por discordar do modo de actuação do assessr? Acaso o Presidente já se pronunciou, já disse porque demitiu o colaborador, acaso o disse pessoalmente a si?
Portanto, percebo o seu ponto de vista igual a muitos: os casos que envolvem o PSD JÁ ESTÃO PROVADOS ANTES DA INVESTIGAÇÃO!
DÁI DIZER QUE EM TODOS ELES HÁ UMA ADMISSÃO FUNDAMENTADA DE CULPA!
DA PARTE DE QUEM NÃO DIZ, MAS SUPONHO DE QUEM ACUSAE NÃO DE QUEM É ACUSADO, O QUE É UMA ORIGINALIDADE "à Sócrates".
Os casos que envolvem o PS ou Sópcrates são "fog of war", TAMBÉM NÃO PRECISANDO DE SE AGUARDAR PELO RESULTADO!
Querem um exemplo?
O caso Freeport não pode ser discutido, em abono do Estado de Direito, do princípio da presunção de inocência, é uma campanha negra, maledicência e ataque pessoal, devendo aguardar-se pelo resultado das investigações.
O caso BPN e pretendê-lo ligar ao PSD, a Ferreira Leite e ao Presidente da República pode, e deve, ser discutido nas campanhas (veja-se as europeias), são culpados sem necessidade de investigação (a tal tese peregrina da admissão fundamentada da culpa - eu diria até originária e genética, nasceu com eles).
É uma forma de se ver a questão, mas que não contraria, antes confirma, o que eu disse.
Ponha-se é no lugar de quem é acusado e em consciência (seja Sócrates ou alguém do PS que nisto não sou sectário) e diga se essa visão é própria da justiça que se quer equisistante e imparcial. Com os mais respeitosos cumprimentos.


Gonçalo, Lx | 22/09/09 11:24
AJ, depende da perspectiva:

No lado do PSD.

Preto = ACUSADO pelo MP, com julgamento marcado militantes do PSD, fundamentadamente, acusam-no de andar a distribuir dinheirinho muito bem incluido nas listas, sob a égide da "verdade" (quem tem telhados de vidro,,,)

BPN = cúpula administrativa ex-PSD (ministros... e não uns bananas quaisquer) que dá um rombo, por meio de expedientes mais que visíveis. Não está provado em tribunal, mas o estado em que está o banco bem revela que algo de podre lá se passou Dias Loureiro a demitir-se?

Escutas = Cavaco diz que não, mas corta as vazas a um seu homem de confiança. Se não era verdade, ele próprio confirma a ingerência com esta demissão

Em todos os casos - há uma admissão fundamentada de culpa

No lado do PS:

Freeport = parece que um tipo diz que o Socrates recebeu dinheiro, que ele o avançou à cabeça e que, portanto, os promotores têm de se chegar à frente com o dinheiro. Aproveita-se o facto do Socrates ser totó (VEJA o traçado da ZPE - a anterior contemplava o raio de uma fabrica de pneus. Por que razão não se havia de mudar?), cozinha-se um DVD (por que razão gravar uma conversa daquelas, se não viesse agua no bico?) e já está...

Eurojust = então o homem pede para se despacharem (e não para arquivar, repare) e de repente é um caso de pressão? O advogado do Lopes da Mota pede para levantar o segredo de justiça neste caso, de forma a que se conheçam todos os detalhes... e o MP diz que não pode ser, para não prejudic ar a sua boa imagem. Estranho? Mais, porque razão é que, com aqueles dois procuradores, todos os dias saiam detalhes em segredo de justiça cá para fora? Nesse caso, que confiança ter?

Em ambos os casos, há um "fog of war" que não nos permite distinguir entre o que será cozinhado e o que será verdade. De qualquer modo, pergunto-lhe: se isto do publico foi escandalosamente combinado... o que dizer de todos estes casos? O freeport, repare, nasceu de um caso assim (com CULPADOS em tribunal) e "renasceu" misteriosamente 4 anos depois, com uma carta rogatória que o proprio SFO reconhece ter sido "descuidada" no conteúdo e na forma.


LOPES CARLOS, Bélgica | 22/09/09 09:33
1. Em vez de Campanha Eleitoral com debates sérios sobre PROGRAMAS CLAROS , com CALENDARIOS RIGOROSOS e ORçAMENTOS c/ GARANTIAS DE FINANCIAMENTO, temos "casos" .
2. A realidade actual está espelhada na 1a pagina do influente LES ECHOS ( França) que na sua edição de HOJE titula " A Segurança Social empurrada para a espiral da divida - As necessidades de Tesouraria atingirão 60 MIL MILHÕES DE EUROS para o ano ( 2010) - Os regimes sociais obrigados a financiarem-se massivamente no CURTO PRAZO nos MERCADOS ( FINANCEIROS) - Os custos das TAXAS DE JUROS vão SALTAR .
3. Felizmente que isto se passa em França ( Pais Pobre) . Em Portugal ( Pais Rico) as discussões são sobre "casos" . Está tudo bem.


NapoLeão, | 22/09/09 09:25
Não sou apanhado de surpresa. Demitir um Assessor ( braço direito ) não é coisa que se faça todos os dias. E a festa ainda não começou. Lá se foi o sonho de ter um Partido. um Presidente e uma Primeira-Ministra. Posto isto, Ferreira Leite sai depenada ...


AJ, | 22/09/09 09:17
Só me admira que neste texto, atentos os seus argumentos e fundamentos, o autor não se tenha referido minimamente à conduta do DN.
A verdade tem nomes e destinatários precisos, ou é universal?
Depende do posicionamento de cada um?
Este caso já está investigado e resolvido?
Então o PR não disse que depois das eleições é que ia tratar disto?
Porque é que os casos que afectam a área do PSD (Preto, BPN, este das escutas) já são dados como verdades insofismáveis, e logo objecto de análise como se de verdades provadas se tratem, e as que afectam o PS (Freeport, Eurojust) são tidos por factos em investigação, com inocência dos visados, e campanhas negras?
Como é?
A que verdade tem dias?



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