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Bruno Proença

A cobardia do Banco Central Europeu

03/08/12 00:04 | Bruno Proença 



Agarra-me senão vou-me a eles. Esta frase popular é a síntese perfeita da postura de Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE). Começou a semana a dizer que faria tudo para salvar o euro. E acabou por não fazer nada.

Ontem, depois da habitual reunião das quintas-feiras para decidir sobre as taxas de juro, perdeu a coragem. As medidas difíceis não são para já. Como é habitual nas instituições europeias, primeiro é preciso estudar o assunto e depois logo se vê. Resultado, os mercados caíram com mais uma micro-depressão, penalizando sobretudo Espanha.

Primeiro, o problema da comunicação. Não há maneira das instituições comunitárias falarem a mesma linguagem dos investidores. Os mercados não gostam de mensagens encriptadas e de pessoas que dizem uma coisa e depois fazem outra. Esta é precisamente a prática dos líderes europeus: juras de amor ao euro mas nada de consumar a relação. Já foram apresentados vários pacotes de medidas para salvar a moeda única mas a verdade é que quase nada chegou ao terreno. A credibilidade das instituições europeias anda pelas ruas da amargura. Os investidores só acreditam em acções.

Ontem, Draghi ficou-se pelas palavras e, assim, as bolsas deram um tombo e dispararam os juros da dívida pública espanhola.

Segundo, a decisão do BCE é claramente influenciada pelas pressões alemãs. A ortodoxia financeira germânica voltou a impor-se. Para a Alemanha, o BCE comprar dívida pública dos países em dificuldades é um sacrilégio. Draghi até estava disposto a reforçar este caminho mas recuou. Agora, só fará isso de forma consistente se os países em dificuldades pedirem ajuda aos fundos europeus. Por outras palavras, se pedirem o resgate internacional.

Com as declarações do início da semana do líder do BCE, criou-se a expectativa de que o Banco Central Europeu poderia ser mais interventivo na defesa do euro e na promoção do crescimento económico, à semelhança do que tem feito a reserva federal nos Estados Unidos. Agora percebe-se que eram esperanças infundadas. Os banqueiros centrais europeus não se conseguem libertar das ordens de Merkel.

Os diversos Estados-membros têm que fazer os trabalhos de casa, nomeadamente corrigindo o endividamento excessivo acumulado nos últimos anos. Com maior ou menor esforço, quase todos estão a fazê-lo. Só a Alemanha é que não percebe que tem de mudar de posição e de política económica.

Como já disse Juncker, primeiro-ministro do Luxemburgo e presidente do Eurogrupo, a Alemanha é a culpada do agravamento da crise europeia. Juncker está longe de ser um perigoso gastador dos países do Mediterrâneo.
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Bruno Proença, Director Executivo
bruno.proenca@economico.pt




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