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António Costa

A Caixa... de Pandora

13/02/12 00:04 | António Costa 



A Caixa Geral de Depósitos revelou, na sexta-feira, um prejuízo recorde de quase 500 milhões de euros em 2011, o que deixa mais dúvidas que certezas sobre a forma como o poder político, primeiro, e as sucessivas administrações do banco público, depois, usaram os dinheiros públicos.

À primeira vista, os resultados da Caixa não são diferentes dos apresentados pelos outros grandes bancos portugueses, que também tiveram prejuízos históricos. Mas há uma grande diferença, é que se trata de um banco do Estado e que, supostamente, deveria ser diferente dos outros, deveria ter um posicionamento no mercado que justificasse a sua existência no universo público. E a primeira constatação é que a Caixa é igual aos outros, não se diferencia pelos melhores motivos, assemelha-se pelos piores.

Como na mitologia grega, José de Matos, o novo presidente-executivo, abriu a caixa dos prejuízos deixados por Faria de Oliveira, anterior presidente--executivo, e todos os males da Caixa escaparam-se. Ou melhor, tornaram-se públicos.

Faria de Oliveira foi instrumental, ou deixou-se ser, por um poder político que utilizou a Caixa para servir-se e não para servir. Os presidentes da Caixa não são os principais responsáveis, terão sido, até, os últimos defensores, até ao limite do possível. Mas o poder político ganhou sempre, ou quase sempre, claro, com a desculpa que era necessário proteger os centros de decisão nacional. E alguns terão sido mesmo isso, mas misturados com muitos (negócios) que nada justificava, a não ser a proteção de grupos falidos e a perpetuação de empresários sem capital a controlar empresas de bandeira. De todos os sectores.

Não deixa de ser curioso que a justificação - mais ruidosa - para os prejuízos de 488 milhões de euros terão sido as imparidades resultantes das participações na PT, BCP e Zon. Não é verdade, e basta analisar as imparidades de crédito - mais de 800 milhões - para perceber que a Caixa andou a financiar quem não devia, e o que não devia. Além disso, fica claro que não cabe ao banco público alinhar em estratégias supostamente nacionais para entrar em empresas como a PT, BCP e Zon. Concentre-se, antes, na actividade bancária, em captar recursos e em emprestar, sobretudo às pequenas e médias empresas.

Como na mitologia, todos os males escaparam da Caixa, mas ficou um, o da esperança: o candidato a primeiro-ministro Pedro Passos Coelho anunciou a intenção de privatizar parte do capital do banco público, contra o qual se manifestaram logo os do costume e o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho deixou cair essa proposta. Seguramente, a crise também tem virtudes, e uma delas é a de revelar que a CGD, assim, com esta estratégia, ou melhor, táctica, não justifica o estatuto de pública e deveria ser privatizada.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt




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