Começou o ano e recomeçou a saga dos encontros Merkel-Sarkozy, seguidos de mais uma “cimeira decisiva”, com a Grécia pelo meio a ameaçar “abandonar o euro”.
Perceber isto exige perceber o grande problema que está em causa: a bolha do euro. Um dos bordões dos últimos anos é que a crise começada em 2007/2008 é uma crise americana que se espalhou pelo resto do mundo. Não haverá muitas dúvidas sobre a parte americana da crise, mas praticamente ninguém reparou como a totalidade da experiência da União Económica e Monetária (a UEM, ou o "euro") não correspondeu senão à longa gestação de uma crise.
A actual crise da UEM, também conhecida por "crise da dívida periférica", é a revelação de uma bolha alimentada durante a última década. Na origem, é uma crise de pagamentos internacionais entre os países que fazem parte da UEM, com posições credoras e devedoras que se deixaram acumular desde Janeiro de 1999. De então para cá, países como Portugal, a Espanha, a Grécia e a Itália (e igualmente a Irlanda e a França) desenvolveram uma crescente posição devedora face sobretudo à Alemanha, mas também a outros países como a Holanda, a Áustria, a Finlândia e o Luxemburgo (que apenas se distinguem da Alemanha pela sua pequena dimensão). A posição devedora daqueles países foi alimentada com crédito bancário proveniente dos países credores, num jogo simples mas perigoso: o dito crédito foi pagando as importações feitas pelos devedores dos produtos provenientes dos credores. Ou seja, foi pagando a incapacidade de uns exportarem para os outros. Dito de outro modo: a banca dos credores foi especulando na capacidade de os devedores inverterem um dia a situação, ou então na eventualidade de existirem no futuro transferências orçamentais dos credores para os devedores que não a deixassem com activos impagáveis. Se não existisse a moeda única (que penaliza os países de menor produtividade: isto é, os devedores), já as suas moedas se teriam desvalorizado para restabelecer o equilíbrio - ou caso não se tivesse restabelecido, já os respectivos países teriam sido motivo de uma intervenção externa, em que a austeridade se combinaria com a desvalorização para se encontrar uma via de saída.
É esta enorme bolha que está a esvaziar-se diante dos nossos olhos. E isto quer dizer que ela é tanto uma bolha da economia alemã (e dos outros credores), alimentada pelo(s) seu(s) sistema(s) financeiro(s), quanto dos países ditos periféricos. E é para isto que se procuram agora soluções numa sucessão de "encontros ao mais alto nível" e "cimeiras decisivas" que nunca o são. Não admira que não sejam.
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Luciano Amaral, Professor universitário
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