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04/04/12 00:02
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João Cardoso Rosas

A bandeira manipulada

João Cardoso Rosas

O leitor já terá reparado na bandeirinha que surge agora na lapela dos membros do Governo e de alguns dos seus apoiantes. Não era assim quando este Governo tomou posse.

Mas, preocupado com a impopularidade das suas políticas, o Executivo decidiu montar uma "estratégia de comunicação" - isto é, um sistema de propaganda -, provavelmente com o concurso de alguma agência profissional. Pois bem, a bandeira nacional na lapela é um dos resultados da "estratégia de comunicação" adoptada.

O caso é algo insólito porque não faz parte da tradição portuguesa. Estávamos habituados a ver esse tipo de prática em países totalitários ou pós-totalitários, assim como nos Estados Unidos, país onde a bandeira está omnipresente, desfraldada no quintal das casas, copiada em objectos de uso quotidiano, mas também exibida por políticos de vários quadrantes. Em Portugal, a bandeira era tradicionalmente tratada com maior distanciamento e o respeito que ainda há pouco merecia provinha dessa mesma prática.

No entanto, as coisas foram mudando. A transformação mais notória deu-se com a generalização do seu uso no apoio à selecção nacional de futebol - o que contribuiu, no meu entender, para o seu desvirtuamento. A esse propósito, contaram-me há tempos o seguinte episódio: tendo falecido, durante o fim-de-semana, um dos professores de uma faculdade da universidade do Porto, a directora da faculdade telefonou aos seguranças que guardavam o edifício para que a bandeira nacional fosse colocada a meia haste. O segurança que atendeu o telefone respondeu que não sabia qual era a bandeira nacional, uma vez que havia lá três: uma era azul e tinha umas estrelas, numa outra estava escrito "cidade do Porto" e uma terceira era, segundo o segurança, "a bandeira da selecção" (sic). "Pois é essa mesma!", terá dito, aliviada, a directora.

Mas o uso propagandístico da bandeira pelos governantes actuais vai para além do desvirtuamento exemplificado por esta pequena história e inaugura uma nova fase: a da sua politização no quadro da democracia. Ao adoptar o símbolo nacional e patriótico por excelência como estandarte de uma governação e de uma política específica, o Governo está a usar como seu aquilo que, de certa forma, pertence a todos os portugueses. A intenção do Governo, ou da agência de comunicação que o terá assessorado, é óbvia: consiste em dizer que aqueles que não apoiarem as políticas governativas não são verdadeiros patriotas. Mas o resultado final é precisamente o da erosão de um dos símbolos fundamentais desse patriotismo, uma vez que os portugueses que não se identificam com o actual Governo passarão, nos tempos mais próximos, a associar a bandeira a uma facção política específica.
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João Cardoso Rosas, Professor Universitário

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