Mais Lidas
Os desenvolvimentos no âmbito da crise de dívida pública europeia continuam a condicionar o comportamento dos principais activos nos mercados internacionais, observando-se ainda o regresso de tensão ao mercado interbancário europeu, reflexo da desconfiança que grassa novamente no sector.
|
Neste contexto, verifica-se ainda um fenómeno de repatriação de fundos, de "regresso a casa", com impacto potencial diverso nas valorizações dos vários activos. No actual contexto, no limite o BCE poderá ter de reduzir mais as taxas de referência; no entanto, não será esse movimento que devolverá a confiança ao mercado. Pois o nível das taxas de juro não é a principal preocupação da autoridade monetária actualmente mas sim a possibilidade de um corte drástico do financiamento à actividade económica. |
|
Na última semana, acentuou-se a discórdia aberta entre os dirigentes franceses e alemães quanto à possibilidade de emissão de eurobonds e relativamente à capacidade de intervenção do Banco Central Europeu no mercado de dívida pública. Os dirigentes franceses defendem um papel mais interventor da autoridade monetária europeia, que detém actualmente no seu balanço títulos de dívida pública dos vários estados da UEM num montante equivalente a 2.5% da dívida pública europeia (EA 17), significativamente inferior aos níveis observados nos EUA, onde o montante de US Treasuries no balanço da Reserva Federal ascende a cerca de 11% do saldo vivo de treasuries. O que confirma um desempenho muito mais pró-activo da Reserva Federal desde a eclosão da crise financeira de 2008, não obstante esta atitude também resultar do mandato tradicional da Fed em assegurar liquidez ao mercado de dívida pública. |
|
O arrastamento da crise de dívida soberana e o facto de não se antecipar o alcance de uma resolução rápida, esteve na base da reacção negativa nos mercados financeiros: no mercado accionista, os preços caíram acentuadamente, nomeadamente os índices Europeus, que registaram a maior queda semanal em cerca de dois meses; a moeda europeia sofreu também perdas, situando-se no final da semana ligeiramente acima de 1.32 face ao dólar, próximo de um importante suporte observado no passado mês de Outubro, 1.3144; as yields praticadas em mercado secundário das obrigações de Tesouro europeias sofreram também penalizações, mesmo os títulos habitualmente tidos como referencial: a yield dos 10 anos do Bund aumentou cerca de 25 p.b. na semana, contrastando com a queda observada nas yields dos US Treasuries para o mesmo prazo, em cerca de 10 p.b. |
|
Neste contexto de discórdia quanto ao caminho a seguir e que soluções adoptar, observou-se o regresso de tensão ao mercado interbancário europeu, pois cada instituição restringe cada vez mais o número de possíveis interlocutores dada a desconfiança que grassa novamente no sector. Há um maior escrutínio sobre cada instituição bancária europeia para aferir quais as mais expostas a dívida soberana europeia, mesmo dos maiores estados. Com efeito, as necessidades de financiamento dos maiores estados são também proporcionalmente muito elevadas (em valor absoluto), mesmo dos mais "bem comportados", como a Alemanha e França. Adicionalmente, as decisões do último Conselho Europeu, sugerem que os activos de dívida pública deixaram de funcionar como activo de referência, sem risco. Pois os investidores privados deverão assumir perdas relativamente à dívida da Grécia, ao contrário dos credores oficiais (nomeadamente o FMI), que mantêm a garantia de reembolso da totalidade do capital investido. Ao se introduzir a necessidade de recapitalização dos bancos, fundeados com a emissão de mais dívida pública, estimula-se também a formação de um ciclo vicioso, pois aumentarão as dúvidas quanto à sustentabilidade de alguns estados, adiando o restabelecimento do normal funcionamento dos mercados de dívida soberana. Os bancos, dados os receios associados à dívida pública, têm vindo a reduzir a sua exposição a esta classe de activos e a conclusão deste processo poderá deixar algumas instituições fragilizadas em termos de capital, exigindo a sua recapitalização. Hoje, os mercados estão a ser muito exigentes no que respeita à composição das carteiras de dívida pública e aos amortecedores de capital: por isso enquanto os bancos na sua maioria não derem resposta a estas exigências, não se antecipa melhoria do sentimento/desconfiança e restauração do mercado interbancário. |
|
Verifica-se ainda um fenómeno de repatriação de fundos, de "regresso a casa", com impacto diverso nos mercados dos vários activos. Os últimos dados oficiais (Balança Financeira de Setembro) reflectem uma redução ligeira da entrada líquida de investimento de carteira na UEM: em Agosto situavam-se em 31.9 mil milhões, passando para 20.7 MM em Setembro. Esta tendência ter-se-á provavelmente acentuado desde então, sendo o reflexo de uma redução do apetite dos investidores internacionais por activos europeus que, por enquanto, surge esbatida pelo movimento de repatriamento de fundos por parte das instituições financeiras europeias. Caso este movimento de "regresso a casa" perdure, é difícil antecipar as consequências finais para as valorizações dos vários activos. A título de referência, o Deutsche Bank estima que o stock de investimento de carteira, por parte de não residentes, na UEM excede o stock de investimento de carteira de residentes na área do euro no exterior por um montante equivalente a cerca de USD 3 biliões - desequilíbrio que poderá pelo menos gerar consequências negativas para o euro nos próximos meses. |
|
No actual contexto, no limite o BCE poderá ter de reduzir mais as taxas de referência; no entanto, não será esse movimento que devolverá a confiança ao mercado. Pois o nível das taxas de juro não é a principal preocupação da autoridade monetária actualmente mas sim a possibilidade de um corte drástico do financiamento à actividade económica. Tal causaria danos na economia real, penalizando o crescimento e o emprego. Aliás, as últimas evoluções de comportamento do BCE vão no sentido não de descida de taxas de juro, mas de disponibilização de mais fundos a por prazos mais longos (possibilidade de haver cedências a mais de um ano). Mais que o preço, é importante a quantidade e a estabilidade da oferta de fundos pelo BCE. |
Notícias da mesma categoria
Disclaimer: "O Económico apela aos leitores para que utilizem este espaço para um debate sério e construtivo, dispensando-se, para o bem de todos, o insulto e a injúria gratuitos. Desaconselha-se o uso exclusivo de maiúsculas e a repetição de comentários. Comentários inadequados devem ser denunciados e quando tiverem mais de cinco denúncias serão eliminados. O IP do leitor não será revelado mas ficará registado na base de dados".
Publicidade
Acções do PSI 20





