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Em 2006, o país ficou a dever quase 80% da riqueza criada.
O endividamento de Portugal junto do exterior está a progredir a um ritmo imparável, tendo atingido quase 80% da riqueza criada (Produto Interno Bruto) no final de 2006, o valor mais alto de uma década.Este número reflecte, em boa parte, o grau de exposição da economia ao exterior, a falta de competitividade das empresas, a incapacidade em gerar riqueza suficiente para reinvestir e o enorme apetite dos portugueses por bens importados.
Mostra também que tipo de internacionalização vingou no país. No caso em apreço, os interesses do exterior em Portugal suplantam os nacionais lá fora em mais de 122,4 mil milhões de euros. A esta captura de riqueza por parte dos agentes económicos estrangeiros chama-se défice da posição de investimento internacional, um desequilíbrio que hoje vale cerca de 80% do PIB, oito vezes mais do que em 1996.
João César das Neves, professor universitário, confere que “os desequilíbrios da economia são enormes, e isso é bem visível no défice da balança corrente mais a de capital”. “A situação só não é tão grave porque estamos numa união monetária”, acrescentou.
Os problemas não ficam por aqui: a dívida externa paga juros, o que num contexto de subida de taxas, como o que agora se verifica, só vem agravar o referido desequilíbrio.
No último boletim da Primavera, a instituição liderada por Vítor Constâncio diz ‘preto no branco’ que a dinâmica de expansão do endividamento externo “tenderá a traduzir-se num aumento do pagamento de juros o que, na ausência de uma aceleração da produtividade, implicará um menor contributo da procura interna para o crescimento do PIB no futuro”. Estima-se que os encargos decorrentes dessa dívida custem anualmente à economia cerca de 3,5% do PIB em juros e amortizações.
O passivo da balança do investimento internacional contempla o Investimento Directo Estrangeiro, acções e obrigações nacionais detidas por investidores externos. Em 2006, esta rubrica ficou em 392 mil milhões de euros. Do lado do activo, está o investimento directos dos portugueses lá fora, os investimentos de carteira, entre outros. Ao todo valeram mais de 270 mil milhões.
No entender do banco central, o risco (elevado segundo os especialistas) associado à dívida externa é, ao fim e ao cabo, um forte desincentivo à contratação de mais investimento (de maior qualidade, como se pretende), pois poderá traduzir-se numa contracção ainda mais profunda do consumo privado. Se a procura interna cresce pouco é cada vez mais difícil convencer os investidores a aplicarem o seu dinheiro em projectos nacionais.
O Banco de Portugal repara ainda que “a evolução da posição de investimento internacional na última década está associada, em particular, ao processo de integração financeira e ao aumento do endividamento externo compatível com o equilíbrio da economia portuguesa, decorrente do alargamento das possibilidades de escolha dos agentes económicos”. Contudo, as consequências financeiras desse processo de integração na economia global – o forte endividamento das famílias, empresas e Estado, ou a elevada dependência face a bens e serviços importados – são, na opinião de alguns peritos, o maior travão ao crescimento português.
Para Vítor Bento, economista, “o demorado e enorme défice externo português diz-nos, entre outras coisas, que a sociedade portuguesa está, há demasiado tempo, a viver acima das suas possibilidades, sustentando-se com endividamento estrangeiro”.
Pontos do boletim estatístico
1 - Corrida desenfreada ao crédito ao consumo
Mesmo com a actual subida de taxas de juro, as famílias portuguesas não têm problemas em apostar numa autêntica corrida ao crédito para consumo. É o que mostram os dados do boletim estatístico do Banco de Portugal, ontem divulgado: em Fevereiro, o crédito ao consumo avançou a um ritmo anual de 12%, o valor mais elevado desde final de 2001, pelo menos. Esta expansão permitiu a este tipo de empréstimos, onde os bancos praticam margens (’spreads’ das taxas de juro) mais elevadas, ganharem peso no total do crédito ao consumo concedido a particulares, atingindo os 10% do total em Fevereiro, um máximo de dois anos. No final de Fevereiro, o endividamento das famílias por motivos de consumo valia 11 mil milhões de euros. O crédito para compra de casa continua a deter a parte de leão, representando quase 80% do total, e evoluíndo à razão de 9,4% ao ano. Em todo o caso, a tendência é de desaceleração, ligeira, tendo vindo a prolongar-se desde início de 2003.
2 - Número de empresas cai para mínimo de seis anos
As recessões conduziram à morte de muitas empresas em Portugal. De acordo com os dados da central de balanços do Banco de Portugal, no último trimestre de 2006 estavam registadas na base de dados do banco central 2.322 companhias. Em igual período de 2004, esse número ascendia a quase 3000. A base de dados anual ainda não foi actualizada para 2006, mas também é possível verificar uma forte redução do número de empresas, para perto de 15 mil.
O universo de pequenas e médias empresas sofreu uma contracção de 2.400 para 1.654 entre o último trimestre de 2005 e o homólogo de 2006. No final de 2006, o número de grandes empresas era de 668, contra 753 em 2005. Fruto da reestruturação, o contributo para o crescimento da economia passou a ser positivo no caso das PME (1,4% no quarto trimestre de 2006), o que não acontecia desde 2004. A riqueza criada pelas grandes empresas foi de 4%, o terceiro trimestre consecutivo de crescimento.
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