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Análise BPI

A economia global em 2008: Reequilíbrio ou Contágio?

Paula Carvalho, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI  
21/12/07 11:00

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Após a maior partição do crescimento económico global em 2007, a actividade económica mundial abrandará, mas permanecerá distante de patamares recessivos. Em 2008 será ainda mais evidente o papel fundamental das economias menos desenvolvidas/industrializadas na sustentação do crescimento global.

Na primeira metade do ano, estará presente o espectro da estagflação (inflação elevada e estagnação da actividade), sobretudo nas economias mais avançadas. No segundo semestre os principais riscos deverão esbater-se e regressará um maior optimismo.

Os riscos globais são negativos para a actividade económica: o arrastamento de condições anormais nos mercados financeiros (clima de desconfiança entre instituições financeiras, alargamento de spreads de crédito, descolagem das taxas do mercado monetário face às taxas de juro de referência); continuação da escalada dos preços dos bens energéticos e alimentares; aumento generalizado do grau de aversão ao risco.

Tal como se antecipava, o ano de 2007 caracterizou-se por um crescimento global ainda relativamente forte, se bem que em abrandamento, sendo notória a maior partição da expansão entre os principais blocos económicos mundiais.

Segundo estimativas do FMI, nas economias desenvolvidas a actividade abrandou de 2.9% para 2.5%, enquanto nas restantes o ritmo de expansão da actividade se manteve robusto, na casa de 8,1%.

Se em 2007 o crescimento económico global ficou a dever-se em mais de 50% aos designados BRIC’s – China, Índia, Rússia e Brasil, em 2008 o contributo dos mercados emergentes e das economias em desenvolvimento será ainda mais determinante.

Nesta fase de evidente desaceleração do ciclo económico mundial, várias dúvidas prevalecem, ensombrando o cenário e aumentando a incerteza:

- Em primeiro lugar, qual a extensão do arrefecimento nos EUA? Será que o consumidor soçobrará perante o contexto adverso de altos preços da energia, mercado laboral em enfraquecimento, deflação no mercado imobiliário e condições de financiamento mais gravosas?

- Entre os países desenvolvidos, qual a robustez da expansão na UEM? A melhoria do mercado do emprego nos últimos anos e os ganhos de competitividade serão suficientes para compensar o arrefecimento da procura externa, a apreciação da moeda, a escalada da inflação e a degradação das condições financeiras?

- Até quando se arrastará a turbulência e as condições anormais de funcionamento dos mercados financeiros internacionais, visíveis por exemplo, na descolagem entre as taxas de juro interbancárias e as taxas directoras dos bancos centrais? Para além de aumento dos encargos para as famílias e empresas (sobretudo em alguns países europeus, em que tipicamente os créditos são contratados com taxa variável), esta situação implica menor facilidade de acesso ao crédito, e este tem sido um motor fundamental para a actividade económica nas últimas décadas.

- Finalmente, serão as economias emergentes capazes de resistir à clara degradação das condições globais em que operam? Será a dinâmica inter-regional e doméstica capaz de superar o arrefecimento da procura externa, reduzindo o efeito adverso do canal de transmissão via trocas internacionais? Apesar da menor vulnerabilidade evidente no capítulo externo, como reagirão os investidores caso aumente o grau de aversão ao risco? Finalmente, a China. Com tantos desequilíbrios internos, poderá o gigante asiático aproveitar o contexto global de moderação para realizar um ajustamento mais expressivo?

Estas são algumas das dúvidas que perpassam na mente dos investidores ao encararem o ano de 2008. Genericamente estamos optimistas. Consideramos que o consumidor americano não vai soçobrar, apesar de os gastos das famílias deverem desacelerar de forma expressiva; admitimos que as condições no mercado financeiro vão gradualmente retornar à normalidade, acreditamos que as economias da UEM estão, efectivamente, mais robustas; finalmente, consideramos que as economias emergentes estão menos vulneráveis e dependentes dos capitais exteriores de uma forma genérica, comparativamente, por exemplo, à época da crise asiática da década de 90. Além de que a forma de encarar este tipo de activos se alterou: os mercados emergentes são cad  vez mais considerados/avaliados de forma independente e não como uma classe de activos amorfa. Em particular, a China continuará a crescer em torno de 10%, não só porque em 2008 se realizarão os Jogos Olímpicos em Pequim mas sobretudo porque o estímulo vindo da procura doméstica tem cada vez maior peso.

Mas, como ficou evidente pelas dúvidas enunciadas, as incertezas são muitas e os riscos são claramente negativos, tanto mais que as probabilidades de um arrefecimento mais forte nos EUA têm tido uma tendência crescente. A possibilidade de disparo dos preços do petróleo, de escalada das pressões inflacionistas (por contágio dos salários por exemplo) impedindo os bancos centrai  de acomodarem o maior arrefecimento ou a possibilidade de aumento da aversão ao risco são factores de risco consideráveis, ensombrando o ano de 2008.



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